“Também lhes dei os meus sábados, para servirem de sinal entre mim e eles, para que soubessem que eu sou o SENHOR que os santifica.” Ezequiel 20.12.1
A primeira coisa que, segundo a vontade do Senhor, você deve honrar no Sábado é o fato de que Ele lhe dá Seus Sábados2. Por isso, você deve banir deliberadamente de suas considerações todo pensamento e toda imaginação de que seria você quem dá seu Sábado ao seu Deus. Não se trata aqui de algo que você faria para o bem do Senhor, para agradá-lo e para o Seu deleite. Toda ideia de uma boa obra, com a qual você Lhe prestaria algum serviço, deve ser completamente afastada de você.
O Senhor nada obtém através do seu Sábado. Ele não é enriquecido nem engrandecido por ele. É o seu Sábado que lhe traz uma bênção de Deus, e não o contrário: uma bênção sua para o seu Deus. O seu Deus, em Si mesmo, jamais necessita de algo, de modo que você pudesse Lhe acrescentar alguma coisa. Mesmo quando Ele ordena a Israel que acenda seus holocaustos, Ele clama ao seu povo que não é por aquele carneiro ou novilho que Ele o faz. Ele, de fato, é um Deus que criou os céus e a terra e tem o seu gado em mil montanhas; e, se desejasse um boi em seu estábulo, não lhe diria, mas Ele mesmo o tomaria de você. Como poderia Ele, o Todo-Suficiente em Si mesmo, ser servido por mãos humanas como alguém que necessita de algo?
Ele, que lhe concede todo o seu tempo e todos os seus momentos durante os dias de sua vida, como poderia receber de sua mão um dia ou uma parte de um dia? Pelo contrário, a ideia do Sábado implica o oposto. Pois, na medida em que se pode falar em sentido figurado de algo que você faria para o seu Deus — ao testemunhar d’Ele, ou zelar por seu santo nome, ou engrandecer esse nome —, é precisamente o Sábado que o chama, em um sentido ainda mais literal, a cessar de toda obra, para que não seja sua a vez de agir, mas do Senhor seu Deus, de operar e mostrar em você o poder da sua operação3.
O Sábado não pode, portanto, ser mais profanado do que buscando em sua celebração um apoio para a justiça das obras. E todo aquele que pensasse consigo mesmo: “Bem, eu falho em muitas coisas e irritei o Senhor com os meus pecados; mas ao menos tenho isto, que celebrei o seu Sábado até o mais estrito ponto”, esse não apenas já teria recebido sua recompensa, mas teria acumulado pecado sobre pecado. Todo Sábado assim seria uma abominação para o Senhor. Não, é Ele, o Senhor, quem lhe dá o seu Sábado.
A maldição do pecado, que repousa sobre o pecador no trabalho, é terrível! É bem verdade que existe trabalho também fora do pecado; que o próprio Deus trabalha até agora, e seu Cristo igualmente. E até mesmo para o pecador, há no trabalho um poder salvador considerável. Para quem trabalha regularmente, a tentação para o pecado é muito menor. Mas ter de trabalhar com o suor do nosso rosto para comer o nosso pão não é natural para nós. Foi por causa do pecado que isso nos sobreveio4.

E embora o abastado em recursos possa rir em seu contentamento ao ler isso, e muitos de ambos os sexos, que vivem de suas rendas e se banham no luxo e, na verdade, nunca fazem nada, possam se alegrar com isso; ai deles, porém, quando chegar o dia do acerto de contas, se nunca tiverem compreendido mais profundamente essa maldição do trabalho!
Pergunte-se apenas de que maneira, digamos, com segurança, inúmeros milhões dos 1,4 bilhões de filhos dos homens que vivem nesta terra passam o seu dia no suor do seu rosto5. Quão miseravelmente vivem; a que desconforto e perigo se expõem; que cansaço genuíno, ao final de mais um dia, está estampado em seu semblante. Pense apenas nos milhões que labutam nas minas; nos outros milhões que trabalham nos campos e montanhas; nos milhões cujas vidas se consomem na fábrica. O trabalho os oprime. O trabalho os esgota. Ele consome sua força humana. E o mais angustiante é que trabalham, não pelo prazer de sua alma, mas porque a fome os compele, e o pão para a própria boca e para a família só pode ser obtido a esse preço.
Como esse trabalho rouba todo o luxo e prazer da vida desta vasta parcela de nossa raça! Quase nunca há descanso! Enquanto o dia dura, o trabalho é intenso. E então, apesar de todo o seu trabalho no suor de seus rostos, muitas vezes mal lhes resta um leito duro e um pedaço de pão duro. Vivendo longe da família, mal veem os seus de manhã e à noite, e então a engrenagem da grande máquina do trabalho recomeça a girar. Avante, avante e sempre avante, como sob o chicote do feitor. Até que a força se esgote, e eles não possam mais, e, como inúteis para o trabalho, passem a ser quase um fardo sobre a terra, e causem uma decepção mal disfarçada por não se apressarem para o túmulo. Oh, nesses amplos e infindáveis setores de nossa raça humana, a maldição do trabalho ainda é tão terrível!
E mesmo que você não considere exclusivamente estes, ainda assim, como o fato de que, a cada dia, quase todo o tempo e todo o esforço de quase todos se esvai no cuidado da vida cotidiana rebaixa a nossa existência humana! Pois, com efeito, há alguns que gozam do alto privilégio de ter seu ofício e vocação em assuntos espirituais, ou pelo menos podem gastar seu tempo nas ocupações mais elevadas do espírito humano; mas serão todos eles juntos mais do que dois ou três em uma aldeia, mais do que duzentos ou trezentos em uma cidade muito grande?
E todos os outros, tanto homens como mulheres, o que fazem senão passar o dia inteiro ocupados com o que serve para dar moradia, vestimenta, comida e bebida ao ser humano? Para isso suspiram as máquinas a vapor e labutam as fábricas. Para isso vive a indústria e existe todo o comércio. Para isso se move a agricultura e se apressa o artesão. Para isso existe toda atividade e negócio.
E mesmo em sua vida pessoal e doméstica, que parte imensa do seu tempo não é consumida pelo sono, pela higiene, pelo vestuário e pela alimentação? Nossas donas de casa, filhas e servas estão quase todo o tempo ocupadas nesse cuidado da vida exterior. E quando o marido e pai, em seu escritório ou negócio, imagina estar acima dessas coisas pequenas e externas, na verdade ele não faz outra coisa senão preocupar-se constantemente em fornecer ou produzir o que pode ser a moradia, a vestimenta e o alimento de sua família, ou então garantir que haja dinheiro para ganhar o pão para a sua casa!
Uma existência, uma ocupação, ter dinheiro para viver, é o impulso sempre ativo que move toda a nossa sociedade. E o que é o impulso por uma existência, por uma ocupação, ou por dinheiro para viver, senão buscar uma solução para o enigma de como converter o suor do seu rosto em pão para si e para os seus?
E, por isso, mais uma vez: há no trabalho também algo precioso, uma bênção. Mas, ainda assim, o trabalho, como tem sido realizado por todos estes séculos, e ainda hoje, por milhões e milhões na terra, o que é ele senão um consumir de nossa existência humana nas necessidades e preocupações da vida? E a porcentagem daqueles poucos afortunados que podem buscar um prazer mais elevado e, já aqui na terra, podem se dedicar a esses bens mais elevados de nossa raça, é incalculavelmente pequena!
Por isso, está escrito: “Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra.” O Sábado não anula a Palavra de Deus dada no Paraíso. O trabalho árduo, que pesa como chumbo sobre nossa raça e a rebaixa a um nível inferior ao da nossa verdadeira existência humana, permanece. As consequências do pecado não foram abolidas. Uma vida angelical não nos é concedida na terra, e uma vida como a do Paraíso nos foi para sempre tirada. Isso não existe mais e não retornará à terra.
Mas isto Deus fez em suas misericórdias: Ele lhe deu o seu Sábado em meio a esse trabalho; Ele, por meio de seu Sábado, paralisou por um momento essa corrida do trabalho; e, nesse Sábado, Ele o ergueu de sua auto-humilhação e o elevou a uma ocupação mais alta.
Ele lhe dá o seu Sábado; e nesse dom a compaixão se manifesta6. A concessão de seu Sábado é um ato de graça divina, um ato de régia graça. A pressão do trabalho teria se tornado demasiadamente angustiante para nós. Teria nos sufocado. E por isso Ele nos deu esse dia de descanso celestial. Apenas ouça! Nela ressoa a palavra da redenção: nesse dia não trabalharás. Em seu Sábado, Deus nos liberta!
Informações sobre a Tradução: A presente publicação consiste em uma tradução livre integral de “De sabbath van God gegeven”. O texto aqui apresentado recebeu o título em português “O sábado dado por Deus”, extraído do livro “Gomer voor den sabbath: meditaties over en voor den sabbath” [Um Gômer para o Sábado: Meditações sobre e para o Sábado].
KUYPER, Abraham. Gomer voor den sabbath: meditaties over en voor den sabbath [Um Gômer para o Sábado: Meditações sobre e para o Sábado]. Amsterdã: Hoveker & Wormser, [1889].
Nota Editorial (para Publicação Web): Para esta publicação online, alguns títulos de seção (tópicos) e as imagens foram inseridos pelo editor com o objetivo de otimizar a leitura e a experiência visual do usuário. O texto bíblico utilizado é da Bíblia Almeida Revista e Atualizada (ARA).
Notas:
- Nota do editor: Esta meditação integra a obra “Gomer voor den sabbath” (Um Gômer para o Sábado), de Abraham Kuyper, publicada em 1889. A coletânea de meditações é dedicada ao sábado. Seu título é uma referência à medida de maná mencionada em Êxodo 16.16-24, simbolizando o sustento diário e semanal que Deus provê. O livro é estruturado em duas partes principais: sete meditações sobre o conceito do sábado e cinquenta e duas meditações, uma para cada domingo do ano, que foram originalmente publicadas no jornal “De Heraut”. ↩︎
- Nota do editor: É importante destacar que a palavra “sábado” é aqui utilizada para se referir, de forma geral, ao dia de descanso. Enquanto na Antiga Aliança este era o sétimo dia, na Nova Aliança ele passou a ser o primeiro dia da semana, conhecido como o Dia do Senhor. ↩︎
- Nota do editor: É interessante observar que Calvino se refere a algo similar em suas Institutas: “…pois o celeste Legislador quis que sob o descanso do sétimo dia prefigurasse ao povo de Israel um repouso espiritual, pelo qual devem os fiéis descansar de suas próprias atividades para que deixem Deus operar neles.” CALVINO, João. As Institutas: Edição Clássica. v. 2. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006. p. 154. A partir disso, compreendemos a natureza do dia de descanso, o Dia do Senhor. É um dia no qual Deus nos ordena a cessar o nosso trabalho e, por assim dizer, nos eleva a Si mesmo (por meio do culto, da pregação e da meditação), para que possa trabalhar em nós. ↩︎
- Nota do editor: Kuyper se refere ao suor, não ao trabalho. ↩︎
- A expressão original neerlandesa ‘zeg veilig r 000 van de 1400 millioen menschenkinderen’ é incomum e pode gerar ambiguidade. Contudo, o contexto geral de Kuyper neste trecho é o de descrever a maldição do trabalho que afeta a vasta maioria da população mundial, incluindo ‘milhões que labutam nas minas’, ‘outros milhões que trabalham nos campos e montanhas’, e ‘milhões cujas vidas se consomem na fábrica’. Assim, o autor convida o leitor a refletir sobre a dimensão da vida de trabalho penoso que marca a imensa parcela da humanidade, e não apenas um número restrito de mil pessoas. [N. do E.] ↩︎
- Nota do editor: Embora o Sábado tenha sido instituído antes da queda, ele se torna um bem ainda maior, uma espécie de dia de consolo para o homem depois da queda. Ele faz, por assim dizer, o suor do rosto cessar, para que o homem possa voltar-se para Deus, a fonte de todo consolo, e anelar pelo descanso final. ↩︎