setembro 2, 2025
Pedro: Olá, seja bem-vindo ao PactualCast. No episódio de hoje, vamos mergulhar em um tema teológico que, embora pareça complexo, toca o cerne da nossa compreensão sobre a salvação e o nosso relacionamento com Deus. Discutiremos um artigo de Klaas Stam intitulado ‘Houve alguma vez um Pacto de Obras?’. Paulo, para começar, poderia nos situar sobre o que é essa discussão em torno do ‘pacto de obras’ e do ‘pacto de graça’?
Paulo: Claro, Pedro. A discussão, conforme o autor aponta, gira em torno de uma ideia bastante comum em certos círculos reformados. A visão tradicional distingue dois pactos: primeiro, um ‘pacto de obras’ antes da queda, onde Adão poderia merecer a vida eterna através da obediência perfeita. Após o pecado, esse pacto teria se tornado impossível, dando lugar a um segundo, o ‘pacto de graça’, onde a salvação é oferecida gratuitamente através de Cristo.
Pedro: E por que essa distinção é considerada tão importante por alguns?
Paulo: Bem, o argumento principal, segundo o texto, é que Cristo precisava cumprir o pacto de obras em nosso lugar. Se não houvesse um pacto de obras para ser cumprido, alguns temem que isso pudesse, de alguma forma, diminuir o valor da obra salvadora de Cristo.
Pedro: Hum, entendo a preocupação. Mas o autor do artigo, Klaas Stam, parece questionar essa ideia. Ele pergunta sobre a base bíblica e confessional para um ‘pacto de obras’ antes da queda. O que ele nos diz sobre isso, Paulo?
Paulo: Exatamente. Ele faz uma pergunta justa: onde encontramos essa expressão nas Escrituras ou nas confissões reformadas continentais? Ele afirma que o termo ‘pacto de obras’ não se encontra nesses textos. Quando a Bíblia fala de um pacto baseado na lei, ela se refere ao pacto Mosaico, revelado no Sinai. É esse o pacto que nos condena, pois não podemos cumpri-lo, e que Cristo cumpriu para que não estejamos mais debaixo da lei, mas da graça.
Pedro: Ah! Então a Bíblia fala de um pacto de obras, mas no contexto de Moisés, não de Adão antes da queda.
Paulo: Precisamente. O autor reforça isso citando Efésios 2, versículos 8 e 9: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie.” Ele ainda acrescenta um ponto fundamental: Cristo foi escolhido como nosso Mediador antes da criação do mundo, como lemos em 1 Pedro 1:20. Portanto, a ideia de que o homem poderia, em algum momento, ter alcançado a salvação por suas próprias obras é questionável.
Pedro: Isso nos leva ao Jardim do Éden. Se Adão não estava lá para ‘provar seu valor’ ou ‘merecer’ a vida eterna, qual era, então, o propósito de seu trabalho? O que Gênesis 2:15 quer dizer com “cultivar o jardim e guardá-lo”?
Paulo: Essa é uma excelente pergunta. O autor explica que Adão e Eva já viviam em plena comunhão com Deus, sustentados por Ele. Eles já podiam comer da árvore da vida; esse privilégio não era uma recompensa futura, mas um dom presente que foi perdido apenas após a queda. O ‘trabalho’ de Adão não era um labor penoso para merecer algo, mas uma tarefa agradável de servir a Deus, tornando o jardim ainda mais belo para a glória do Criador.
Pedro: E sobre a parte de ‘guardá-lo’? Isso me parece sugestivo.
Paulo: Sim, o autor destaca que a palavra hebraica original para ‘cuidar’ ou ‘guardar’ é SMR, que literalmente significa vigiar. Por que colocar um vigia se não houvesse perigo? Isso sugere que Adão e Eva foram alertados sobre um inimigo, o dragão, e sua tarefa era proteger o jardim do mal. Eles não estavam alheios ao perigo.
Pedro: Então, se não era um pacto de obras, como o autor descreve o relacionamento original de Deus com a humanidade?
Paulo: Ele o descreve como um pacto de amor eterno. A essência era: ‘Eu lhes dou tudo, e vocês me dão tudo’. Deus, o Criador do pacto, estabeleceu as regras, e a única obrigação de Adão e Eva era reconhecê-lo como Soberano, o que era demonstrado pela obediência ao único mandamento de não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. Era um relacionamento baseado no amor de Deus, feito para durar eternamente e salvaguardado em Cristo desde antes da fundação do mundo.
Pedro: Mas Paulo, e quanto às confissões que mencionam o pacto de obras, como os Padrões de Westminster? Como o autor lida com isso?
Paulo: Ele reconhece que, sim, o Capítulo VII dos Padrões de Westminster fala explicitamente de um primeiro pacto de obras. No entanto, ele cita um relatório dos sínodos das Igrejas Reformadas Canadenses que, ao dialogarem com igrejas que subscrevem Westminster, como a OPC, classificaram essa formulação como uma ‘divergência’ que continha ‘fraquezas e imperfeições’. A questão não foi vista como um erro que impedisse a comunhão, mas como um ponto que poderia ser melhorado e discutido dentro do vínculo da fraternidade.
Pedro: Entendi. Não uma heresia, mas uma fraqueza na formulação. E por que, afinal, essa distinção é tão importante para nós hoje? O que está em jogo?
Paulo: O autor argumenta que algo muito precioso está em jogo: a compreensão de que Deus se relaciona conosco primariamente por amor. Nosso esforço na vida cristã não é para cumprir um contrato, mas para responder a esse amor maravilhoso. Existe um só pacto, o pacto de amor de Deus. Compreender que o pecado foi uma quebra desse pacto de amor, e não de um pacto de obras, realça ainda mais a profundidade da nossa depravação e a maravilha da graça de Cristo.
Pedro: E como isso se aplica à aliança que Deus faz conosco e com nossos filhos?
Paulo: O autor é claro: o pacto de amor é feito com ‘os crentes e sua descendência’. Isso impõe uma obrigação a todos os filhos da aliança de amar e servir a Deus. A regeneração e a fé são exigidas não como condições para entrar no pacto, mas como obrigações que fluem dele. Não é um contrato do qual podemos simplesmente desistir. É um relacionamento vivo e dinâmico. Deus nos mantém fiéis à sua Palavra, e mesmo quando falhamos, Ele nos chama de volta em Cristo. Afinal, como diz João 3:16, “Deus amou o mundo de tal maneira…” É esse amor, e não o terror, que nos conduz a Ele.
Pedro: Excelente. Então, para resumir, o argumento central de Klaas Stam é que a estrutura de um ‘pacto de obras’ pré-queda carece de base bíblica direta e pode obscurecer a natureza fundamental do relacionamento de Deus conosco. Em vez disso, ele propõe que sempre existiu um único e eterno ‘pacto de amor’, estabelecido na eternidade em Cristo. A obediência de Adão não era um meio de merecer a vida, mas uma resposta de amor à generosidade de um Deus soberano. Nossa vida hoje, portanto, deve ser uma resposta contínua a esse mesmo pacto de amor, que foi assegurado para nós pela obra redentora de Cristo.
Pedro: Para mais conteúdos sobre a fé reformada, visite o site – editoraviacontinental.com. Veja o link na descrição do vídeo.
Paulo: Agradeço a todos os ouvintes. Até a próxima.
Pedro: Obrigado pela sua companhia. Até o nosso próximo encontro.
O PactualCast tem como objetivo apresentar resumos em formato de diálogo, baseados em artigos de autores reformados continentais. As vozes dos apresentadores (Pedro e Paulo) são sintéticas; por isso, ocasionalmente pode ocorrer alguma pronúncia imprecisa. Ressaltamos que o roteiro do podcast foi integralmente editado e supervisionado pelo Pr. Elienai B. Batista. Para se aprofundar no tema, recomendamos a leitura do artigo em sua fonte original.
O texto usado para o podcast é o artigo do Rev. Klass Stam – Was There Ever a Covenant of Works? Clique no link para acessar o artigo.