agosto 28, 2025

O desenvolvimento da Ordem Eclesiástica nos Países Baixos

Resumo escrito por
Clarence Bouwman

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Transcrição:

Pedro: Olá, seja bem-vindo ao PactualCast. Hoje, vamos mergulhar na história e nos princípios que moldaram a forma como as igrejas reformadas se organizam. Nossa conversa será baseada no artigo “O Desenvolvimento da Ordem Eclesiástica nos Países Baixos”, de Clarence Bouwman.

Pedro: Paulo, para começar, o artigo menciona que a ideia de governo da igreja, especialmente o papel do presbítero, foi central para Calvino, mas não foi em Genebra que ela realmente floresceu. Onde, então, esses princípios encontraram solo fértil?

Paulo: Bem, Pedro, é interessante notar que, embora Calvino tenha desenvolvido esses conceitos a partir das Escrituras, foi nos Países Baixos, além da Escócia e da França, que a sua visão de governo da igreja realmente se desenvolveu. E devido a eventos históricos que quase extinguiram as igrejas na França, os Países Baixos se tornaram o principal palco para a prática da ordem eclesiástica reformada no continente europeu.

Pedro: E como era o cenário nos Países Baixos naquela época? Não foi um processo fácil, certo?

Paulo: De forma alguma. A reforma chegou lá através da influência de Lutero, mas abraçar esses ensinamentos muitas vezes custava a vida. Desde 1523, a perseguição era intensa. Os Países Baixos estavam sob o domínio espanhol do rei Filipe II, e o catolicismo romano era a religião do estado. Nesse contexto de perseguição feroz, é que o evangelho, com uma ênfase mais calvinista, começou a fincar raízes.

Pedro: E é nesse cenário que surge uma figura muito importante, Guido de Brès. Qual foi o papel dele nesse desenvolvimento?

Paulo: Guido de Brès foi um pregador do evangelho que trabalhou na clandestinidade. Em 1561, ele escreveu a ‘Confissão Belga’ e a entregou às autoridades. O objetivo dele era duplo: primeiro, protestar contra a opressão cruel e, segundo, mostrar que os reformados não eram rebeldes, mas cidadãos cumpridores da lei que professavam a verdadeira doutrina cristã conforme as Escrituras.

Pedro: Ah! Então a Confissão Belga não era apenas um documento teológico, mas também uma declaração política, por assim dizer?

Paulo: Exatamente. No Artigo 36, por exemplo, de Brès afirma que todos devem estar sujeitos às autoridades civis, pagar impostos e obedecer em tudo que não contradiga a Palavra de Deus. Isso é muito significativo, vindo de alguém que sofria perseguição por parte desse mesmo governo. A desobediência só era justificável quando o governo exigia algo contrário às Escrituras.

Pedro: E ele também incluiu princípios sobre o governo da própria igreja nessa confissão, mesmo sob risco de perseguição?

Paulo: Sim, e isso é fundamental. Nos Artigos 30 a 32, ele estabelece a base. Ele afirma que a Igreja deve ser governada “segundo a ordem espiritual que nosso Senhor nos ensinou em Sua Palavra”. Isso inclui pastores para pregar e administrar os sacramentos, e também presbíteros e diáconos que, juntos, formam o conselho da Igreja. Ele também enfatiza que esses oficiais devem ser escolhidos por eleição legítima da igreja, e não impostos pelo governo, como era a prática da época.

Pedro: É impressionante ver essa convicção em meio a tanta adversidade. O artigo fala sobre as “igrejas sob a cruz”. O que aconteceu com essas comunidades?

Paulo: Em 1567 e 1568, a repressão se intensificou brutalmente com a chegada do General Alva, enviado pelo rei. Milhares de protestantes fugiram para a Alemanha e Inglaterra, formando congregações de refugiados. Eram, de fato, igrejas perseguidas e dispersas. Mas, sabe, o que é notável é a fé e a esperança que eles mantinham. Eles não pensavam apenas em sobreviver fisicamente. Eles acreditavam que Cristo é Rei e que, no tempo certo, o evangelho floresceria novamente em sua terra.

Pedro: E essa esperança os levou a se organizar mesmo no exílio?

Paulo: Precisamente. Eles arriscavam suas vidas para se reunir e desenvolver um governo eclesiástico bíblico, para que estivessem prontos quando a liberdade chegasse. Para eles, as assembleias eclesiásticas, como classes e sínodos, não eram um fardo, mas algo essencial para a vida da igreja. Eles sabiam que as igrejas precisavam umas das outras.

Pedro: Isso nos leva ao ‘Convento de Wezel’, em 1568. O que foi esse encontro?

Paulo: O Convento de Wezel, na Alemanha, não foi um sínodo oficial, mas uma reunião de irmãos interessados, a maioria refugiados. Eles se reuniram para preparar o terreno para um sínodo oficial, estabelecendo princípios de como uma federação de igrejas deveria funcionar. Eles usaram a ‘Ordenanças Eclesiásticas’ de Calvino como modelo, mas não a aceitaram cegamente. Eles buscaram aprimorá-la, sempre se perguntando: “o que Deus quer de nós?”.

Pedro: E quais foram os princípios essenciais que saíram de Wezel?

Paulo: Dois princípios fundamentais se destacaram. O primeiro, que se tornou o Artigo Um da sua proposta de ordem, foi: “Nenhuma igreja deve, de forma alguma, dominar outras igrejas, nenhum oficial sobre outros oficiais”. Isso nasceu de uma experiência negativa com um pastor dominador e reflete diretamente as palavras de Jesus em Mateus 23. Em suma, não há espaço para hierarquia ou tirania na igreja de Cristo.

Pedro: Hum, um princípio de igualdade e respeito mútuo. E o segundo?

Paulo: O segundo princípio foi a necessidade de assembleias eclesiásticas regulares. Eles entenderam que a interação frequente entre as igrejas era vital para evitar tanto a hierarquia quanto o independentismo — a tendência de cada igreja seguir seu próprio caminho. Essas reuniões serviriam para manter a “concordância uniforme na doutrina, bem como na regulamentação das cerimônias e da disciplina”. É curioso que eles sugeriram reuniões a cada três meses, mesmo com as dificuldades de viagem da época.

Pedro: Isso realmente nos faz pensar sobre a frequência com que nossas igrejas se reúnem hoje. E como esses princípios foram oficializados?

Paulo: O passo seguinte foi o Sínodo de Emden, em 1571. Este foi o primeiro Sínodo Geral oficial das Igrejas Reformadas dos Países Baixos, também realizado na Alemanha por causa da perseguição. E o primeiro ato deles, antes mesmo de discutir a ordem da igreja, foi expressar um acordo mútuo com a Confissão Belga. Eles entenderam que a unidade na fé é o que une as igrejas. A ordem da igreja deve ser construída sobre o fundamento da confissão.

Pedro: Então, a confissão vem antes da ordem. E o que Emden acrescentou ao trabalho de Wezel?

Paulo: O Sínodo de Emden consolidou o trabalho de Wezel. Eles adotaram o princípio de não dominação, que não estava presente na ordem da igreja francesa que usaram como modelo. Eles também fizeram uma mudança sutil, mas importante, no texto: mudaram a palavra “igreja” no singular para o plural “igrejas”, corrigindo a ideia de que as igrejas locais são apenas filiais de uma grande igreja nacional. Isso reforça a autonomia da igreja local dentro da federação.

Pedro: E essa base estabelecida em Wezel e Emden permaneceu?

Paulo: Sim. Após o fim da perseguição em 1572, vários sínodos foram realizados em solo holandês, construindo sobre essa base. O processo culminou no famoso Sínodo de Dort, em 1618-19. Depois de lidar com as heresias do Arminianismo, o sínodo adotou uma versão da Ordem da Igreja que, em princípio, é a mesma que muitas igrejas reformadas usam até hoje. A raiz de tudo está nesse trabalho pioneiro e fiel dos nossos pais em Wezel e Emden.

Pedro: Que jornada fascinante. Para resumir, então, vemos que a ordem da igreja reformada não nasceu em um vácuo teológico, mas foi forjada no fogo da perseguição. Ela se baseia em princípios bíblicos claros: a centralidade de Cristo como único Mestre, a rejeição de qualquer forma de dominação humana dentro da igreja, a importância da unidade confessional e a necessidade vital de as igrejas se apoiarem e se aconselharem mutuamente através de assembleias regulares. É um legado de fé, coragem e profunda submissão à Palavra de Deus.

Paulo: Exatamente, Pedro. Somos privilegiados pelo trabalho de nossos pais que se esforçaram por organizar a igreja nos moldes bíblicos.

Pedro: Para mais conteúdos sobre a fé reformada, visite o site: editoraviacontinental.com.

Paulo: Até o próximo.

Pedro: Até o nosso próximo encontro no PactualCast.

Informações:

O PactualCast tem como objetivo apresentar resumos em formato de diálogo, baseados em artigos de autores reformados continentais. As vozes dos apresentadores (Pedro e Paulo) são sintéticas; por isso, ocasionalmente pode ocorrer alguma pronúncia imprecisa. Ressaltamos que o roteiro do podcast foi integralmente editado e supervisionado pelo Pr. Elienai B. Batista. Para se aprofundar no tema, recomendamos a leitura do artigo em sua fonte original.

Fonte:

O texto usado para o podcast é o artigo do Rev. Clarence Bouwman – Development of Church Polity in the Netherlands. Clique no link para acessar o artigo.

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