Nosso Deus pode ser eternamente compassivo em sua misericórdia, mas também pode ser impiedoso, como o juiz impassível em seu julgamento1.
“O que quer morrer, morra…”. Mas não está escrito que o Senhor não tem prazer na morte do perverso, e sim em que ele se converta e viva? E a morte não é um inimigo de Deus, por ser serva de Satanás?
Com certeza. E, no entanto, Deus diz aqui, por meio de seu profeta Zacarias — e Ele o diz repetidamente através de sua revelação na história do mundo, e o diz também nestes dias à humanidade que encolhe e sucumbe sob a espada da guerra: “O que quer morrer, morra”.
Há épocas que, por sua própria natureza, fazem com que esta palavra de Deus seja ouvida como uma palavra de desgraça sobre o mundo, e que a ilustram de forma cruel e amarga através da concretização da própria desgraça. E isso acontece não apenas neste tempo, quando, com fúria diabólica, o mundo está dividido contra si mesmo, mas na verdade sempre, pois a morte nunca sai do mundo; nunca houve paz, paz plena, na terra sombria. Destruição e miséria estão em seus caminhos, e permanecem ali, pois mesmo antes de agosto de 19142, valia o seguinte:
“É guerra, é guerra3,
onde há pessoas e animais;
a luta já está, em tudo que vive,
nascida e atada ao osso.
É guerra, é guerra,
onde há pessoas e animais;
dilaceram-se uns aos outros; a morte
se senta até nas nuvens
e me espia!”
E agora? Há mais de um ano que clamamos; suplicamos para que o Deus da paz possa intervir na roda que rola cada vez mais rápido, no carro de guerra do deus da guerra; mas Deus não responde. Ele ouve tudo, vê tudo, sabe tudo, e Ele diz, de forma imperturbavelmente severa, a eles e a nós: “O que quer morrer, morra! Deus permite que a morte prossiga.
Como isso é possível?
“Como isso é possível?”, você pergunta novamente. “Como isso é possível?” Preste atenção ao lugar onde esta palavra está escrita. Nós a lemos em Zacarias 11, mas ela não pode estar em Gênesis 1. Esta palavra não é uma palavra da criação, mas é uma sentença que, partindo de um estado já existente, o perpetua e mantém.
As próprias palavras contêm sua própria explicação. Não está escrito: “Que morra!”, e então, como consequência: “Morre”. Mas, ao contrário, primeiro é descrito o estado que já existe: “Morre”. E então segue: “Que morra”.
Gênesis 1 fala uma linguagem diferente. Lá, onde Deus fala sua palavra de vida para trazer o mundo à existência, Ele primeiro diz: “Haja luz!”. Então, o que acontece? “E houve luz”. E assim por diante. Deus primeiro diz: “Seja assim!” E então assim é. Primeiro sua palavra criadora, depois, como resultado, o estado existente.
Antes de Deus falar, não havia nada. O Deus criador não pode dizer: “O que vive, que viva!”, pois nada vivia além Dele. Mas todo o Gênesis 1 é justamente o oposto, e pode ser resumido nesta única palavra: “E disse Deus: Haja vida! E houve vida!”.
Você entendeu agora?
“O que quer morrer, morra!”. A morte não é obra de Deus, mas a morte é exatamente o oposto da obra de Deus. Se a morte fosse criação de Deus, o comando: “Que morra”, viria em primeiro lugar.
Mas ele está em último lugar na palavra de Zacarias. A morte já está, portanto, no mundo, quando Deus faz esta palavra ser ouvida. É por isso que a morte não é criação de Deus, mas produto do diabo, obra humana.

O que a morte significa para nós
Portanto, cale-se, filho do homem, e fique em silêncio! Mesmo que Deus, por toda a eternidade, queira repetir: “O que quer morrer, morra!”, e nunca, jamais, pôr um fim a isso, ainda devemos clamar com tremor:
“Sois perfeito, sois justo, Senhor!4
Vosso juízo repousa nas melhores leis,
Vossa recompensa, vosso castigo,
correspondem à Vossa honra.”
Pois a morte não é nossa obra? Não fomos nós que trouxemos para o jardim do mundo as sementes da morte e da destruição, as sementes da aniquilação e da ruína? E agora essa semente brota e se torna erva daninha; não, mais: ela se torna planta venenosa, amarga como o absinto, e causticante como os cardos. E então nossa alegria acaba, e nós encolhemos quando temos que comer da árvore da ruína, do fruto da morte.
E voltamos à nossa dogmática5, e sabemos que do jardim do mundo, Deus é o idealizador, Deus o criador, Deus o sustentador. E então queremos culpar a Deus, que Ele, o lavrador, não deu um ‘pinheiro’ em vez de um espinheiro, uma murta em vez de um cardo. Acusamos a Deus.
Mas esquecemos que a morte não é mencionada no programa da criação de Deus em Gênesis 1; e que, portanto, não foi Ele, mas nós mesmos, que trouxemos as sementes da morte para o nosso jardim. E se nós trouxemos o mal da erva daninha, podemos então obrigá-Lo a limpar o nosso jardim da vida? Podemos exigir? — “O que quer morrer, morra”, diz o Senhor. “Ele faz o que é bom aos seus olhos”, responde o homem.
E então continuamos nesta dogmática. Ou, se você não quiser, prossiga seguindo a lei da vida, e você saberá que cada erva daninha tem uma raiz. E essa raiz aqui é o pecado. A morte está ligada ao pecado. E essa raiz deve ser removida primeiro; caso contrário, nenhuma luta ajudará, e continuará assim, eterna e para sempre: “O que quer morrer, morra!”.
Então vem a confissão, o reconhecimento da culpa. Então sabemos: somos como Israel, que Zacarias descreve: o desprezo humano pelo cuidado divino foi a doença e o pecado deles, e também o nosso! E é por isso que Deus vira a morte contra nós, assim como contra eles.
E veja, ali a luz começa a brilhar na noite da morte. Onde há tal confissão, Deus quer devolver a vida. Não como nosso produto, mas como sua dádiva da Graça. Então Ele nos leva à cruz de Cristo, que venceu a morte e também conquistou a paz.
É para lá que devemos ir. Isso exige humilhação. Mas é necessário. Por natureza, nos apegamos à morte, pois apagar a própria obra com um risco, ah, isso não é fácil. Uma prova? Recentemente, foi publicado na Alemanha um ‘sermão’ de guerra, sob o título: “Mars Consolator”6, ou seja, o deus da guerra, nosso consolador. Não há lamento, mas uma glorificação da guerra. Eis uma das expressões mais flagrantes da manutenção da própria obra. E essa automanutenção é inerente a todos nós por natureza.
Mas a Escritura conhece apenas uma saída: “Christus Consolator”, isto é, Cristo, que nos consola. Ele traz paz, vida7.
E agora entendemos:
“É guerra, é guerra, onde há pessoas;
os animais se dilaceram uns aos outros; a morte
se senta até nas nuvens
e me espia!
Misericordioso Salvador,
que haja paz, onde? — Em teu colo!”
Por nossa causa: “O que quer morrer, morra”. Mas por causa Dele: “O que morreu, que viva” uma vida por toda a eternidade.
Por nossa causa, a sentença é: O que quer morrer, morra.
Mas, por causa d’Ele, a promessa é: O que morreu, viva… para uma vida eterna.
Informações sobre a Tradução: A presente publicação consiste em uma tradução livre integral de “Wat sterft, dat sterve”. O texto aqui apresentado recebeu o título em português “O que quer morrer, morra”.
SCHILDER, K. Schriftoverdenkingen. Deel 1. In: VEENHOF, C. (Org.). Verzamelde werken afdeling II. Goes: Oosterbaan & Le Cointre, 1956.
Nota Editorial (para Publicação Web): Para esta publicação online, alguns títulos de seção (tópicos) e as imagens foram inseridos pelo editor com o objetivo de otimizar a leitura e a experiência visual do usuário. O texto bíblico utilizado é da Bíblia Almeida Revista e Atualizada (ARA).
Notas:
- Este texto é a primeira meditação publicada por Schilder, sendo também o primeiro texto de sua autoria a aparecer na imprensa reformada. Ele pode ser encontrado no “Geref. Kerkblad van Drente en Overijsel” de 16 de outubro de 1915. ↩︎
- O texto foi escrito mais de um ano após o início da Primeira Guerra (1914 – 1918). [N. do E.] ↩︎
- O texto em holandês é uma tradução do poema “Krieg” (Guerra) de Theodor Fontane. A tradução para o holandês foi feita por Willem de Mérode (pseudônimo de Willem Eduard Keuning), que era um poeta e pastor holandês. [N. do E.] ↩︎
- Temos aqui, uma estrofe da versificação (berijming) do Salmo 119, especificamente o versículo 69. A versificação em questão é a de 1773, oficialmente conhecida como Statenberijming, que é a versão padrão e mais amplamente utilizada para o canto de Salmos nas igrejas reformadas holandesas. [N. do E.] ↩︎
- Para Klass Schilder, a dogmática não deve ser vista como uma disciplina acadêmica estéril, mas como uma teologia viva, inseparável da práxis (prática) da igreja. Ele defendia que a doutrina precisa ser mais do que um sistema teórico. Ela deve, na verdade, moldar todos os aspectos da vida cristã, como a pregação, a adoração, a missão e a ética. [N. do E.] ↩︎
- “Mars Consolator” é um termo teológico que significa “Marte, o Consolador”. É uma expressão paradoxal, pois une a figura de Marte, o deus romano da guerra e da violência, com a de Consolador, que se refere a conforto e paz. [N. do E.] ↩︎
- O conceito de “Christus Consolator” (Cristo, o Consolador) está, de fato, diretamente ligado à visão de “Mars Consolator” (Marte, o Consolador) na teologia de Klass Schilder. Para Schilder, o consolo que Cristo oferece não é um sentimento abstrato de paz, mas a consequência direta de Sua vitória sobre a guerra espiritual. O consolo é o resultado do triunfo de Cristo sobre o pecado, a morte e o diabo. Nessa perspectiva, o crente encontra uma certeza inabalável: o conforto não é apenas a ausência de luta, mas a convicção de que seu Salvador lutou e venceu em seu lugar. Portanto, o consolo de Cristo é o consolo de um Rei soberano e vitorioso. [N. do E.] ↩︎