Indubitavelmente, há comunhão entre a igreja militante e a triunfante1. Essa comunhão se fundamenta em Cristo, da mesma forma que a comunhão dos santos na terra2. Visto que ambas participam do mesmo Cristo, elas também têm comunhão uma com a outra3.
Ademais, a igreja na terra é chamada a lembrar-se com reverência dos santos que nos precederam e a seguir sua fé, seu amor e suas obras.
Nutrimos também a esperança do reencontro. O Racionalismo exagerou essa esperança de forma terrível e, em sua busca pela comunhão mútua, quase se esqueceu da comunhão com Cristo4. Isso, contudo, não anula a esperança em si. Ela é genuinamente humana e se baseia no fato de que a igreja forma a nova humanidade.
O próprio Jesus apresenta a alegria dos céus sob a imagem de uma refeição, na qual todos se assentam com Abraão, Isaque e Jacó: “Digo-vos que muitos virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lugares à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus.” (Mateus 8.11, em conexão com Lucas 13.28-29). No entanto, a esperança do reencontro deve sempre permanecer subordinada ao anseio pela comunhão com Cristo.
Podemos supor com segurança que os bem-aventurados no céu anseiam pelos crentes que estão na terra, pois eles mantêm a lembrança das pessoas e circunstâncias que conheceram aqui (Lucas 16.27-31).
É provável, ademais, que os bem-aventurados no céu tenham algum conhecimento sobre a condição geral da igreja militante, seja por meio de anjos ou dos recém-chegados, e que observem sua luta com interesse.
Além disso, eles ainda se encontram em um estado provisório. Ainda lhes falta a nova terra, o corpo da glorificação e a plenitude da igreja que ainda adentrará o céu — sem a qual, segundo Hebreus 11.40, a consumação não pode ser alcançada. Por essa razão, eles anelam pelo retorno de Cristo e pela restauração de todas as coisas.
Informações sobre a Tradução: A presente publicação consiste em uma tradução livre integral do § 13, intitulado “De gemeenschap der strijdende en der triumfeerende kerk naar de H. Schrift”. O texto aqui apresentado recebeu o título em português “A comunhão entre a igreja militante e a igreja triunfante segundo a Sagrada Escritura”, extraído do capítulo sobre a Consumação dos Séculos da seguinte obra do teólogo holandês Dr. Anthonie Gerrit Honig (1864-1940): Handboek van de Gereformeerde Dogmatiek (Manual de Dogmática Reformada).
HONIG, A. G. Handboek van de Gereformeerde Dogmatiek [Manual de Dogmática Reformada]. Kampen: J.H. Kok, 1938.
Nota Editorial (para Publicação Web): Para esta publicação online, alguns títulos de seção (tópicos) e as imagens foram inseridos pelo editor com o objetivo de otimizar a leitura e a experiência visual do usuário. O texto bíblico utilizado é da Bíblia Almeida Revista e Atualizada (ARA).
Notas:
- O autor, Antonie Gerard Honig (1864-1941), foi formado na tradição neocalvinista de Abraham Kuyper na Universidade Livre de Amsterdã. Após obter seu doutorado cum laude em 1892 com uma tese sobre Alexander Comrie e servir brevemente no pastorado, sua carreira acadêmica atingiu o ápice. Em 1903, Honig foi nomeado para a prestigiosa cadeira de Dogmática na Escola Teológica de Kampen, como sucessor de Herman Bavinck. Permaneceu nesse posto por trinta anos, até sua aposentadoria em 1933. Cinco anos depois, em 1938, publicou a síntese de sua vida de ensino, a obra magna Handboek van de Gereformeerde Dogmatiek (Manual de Dogmática Reformada), da qual este excerto foi retirado. [N. do E.] ↩︎
- Na teologia reformada, representada por A. G. Honig, a distinção entre a Igreja militante (Ecclesia Militans) e a triunfante (Ecclesia Triumphans) não se refere a duas Igrejas, mas a dois estados de um único corpo. A primeira descreve os crentes em sua batalha terrena; a segunda, os que já participam da vitória celestial. A conexão espiritual entre elas é afirmada pela doutrina da “comunhão dos santos”. [N. do E.] ↩︎
- A. G. Honig foi professor de Dogmática em Kampen de 1903 a 1933. Nesse período, Klaas Schilder foi seu aluno, iniciando os estudos em 1909 e graduando-se cum laude em 1914. Anos mais tarde, em 1934, o próprio Schilder foi nomeado para suceder Honig na mesma cadeira de Dogmática. Apesar dessa relação direta, Schilder desenvolveu uma forte crítica às distinções clássicas da eclesiologia. Conhecido por sua aversão a dualismos e abstrações que poderiam diminuir a seriedade da Igreja visível, ele rejeitava não apenas a separação “visível/invisível”, mas também “militante/triunfante”. Essa crítica é evidente em suas “Dezenove Teses sobre a Igreja” (1935), nas quais ele refuta distinções baseadas em experiências subjetivas, enfatizando a Igreja como um corpo único que é continuamente reunido por Cristo. Em suma, para Schilder, a Igreja não deve ser vista em estados separados, mas como um organismo único e dinâmico, em um processo indivisível de luta e triunfo sob a liderança de Cristo. [N. do E.] ↩︎
- O “Racionalismo”, neste contexto, refere-se ao pensamento teológico liberal oriundo do Iluminismo (séculos 18-19). O erro fundamental dessa corrente não foi nutrir a esperança do reencontro, mas dar a ela a primazia sobre a comunhão com Cristo, tornando-a o foco principal da vida após a morte. Consequentemente, a alegria celestial foi reduzida a um sentimentalismo humano, e a reunião com os santos tornou-se mais importante do que a visão do Salvador. Trata-se de uma clássica inversão antropocêntrica, na qual o homem, e não Cristo, ocupa o centro da esperança escatológica. [N. do E.] ↩︎