Contexto da Reforma e nascimento
A Reforma se espalhou rapidamente nos Países Baixos. Já em 1523, o Novo Testamento foi traduzido para o flamengo. O imperador Carlos V tentou, por meio da perseguição, sufocar as sementes da Palavra de Deus. Contudo, os seguidores da Palavra se multiplicaram em meio àquelas crueldades, com as quais se tentava exterminá-los.
Nos primeiros tempos da Reforma, os monges demonstraram grande zelo em se opor à inclinação dos ânimos na Bélgica. Já antes de Lutero, os ataques de Erasmo os haviam despertado e colocado em alerta. Eles recebiam apoio de outras regiões. Em Mons, na província de Hainaut, um monge italiano1, em particular, encheu a cidade com suas pregações. Ele discursava nas ruas, insistia com esmero na necessidade de submissão ao Papa e cativava todos os seus ouvintes com sua eloquência italiana. As pessoas o seguiam, aglomeravam-se ao seu redor e o escutavam com encanto.
Entre seus maiores admiradores encontrava-se uma mulher de religiosidade escrupulosa, esposa de um cidadão de Mons, chamado de Brès2. Nesse mesmo ano, nasceu seu filho, Guido de Brès.
Conversão, primeiros passos e o exílio na Inglaterra
Desde cedo, ele se destacou por sua diligência e pelo zelo que praticava por todas as superstições da igreja romana. Quando um exemplar das Sagradas Escrituras chegou às suas mãos, começou a lê-lo com grande avidez e dedicou-se inteiramente a este estudo. Logo, aprendeu a verdade do Evangelho. Quando Deus, por Seu Santo Espírito, lhe fez compreender que o homem é salvo pela graça, ele se consagrou a Jesus Cristo, seu Redentor.
O jovem Guido aprendeu a arte de pintar vitrais; contudo, aproveitava todas as oportunidades para anunciar a seus pais, companheiros e amigos as verdades que se lhe haviam tornado tão preciosas. A maioria não queria ouvi-lo. Sua mãe, no entanto, converteu-se a Deus, embora a data exata desse acontecimento não seja conhecida. O ódio e a oposição, entretanto, aumentaram, e como nosso jovem pintor corria o risco de ser denunciado ao Governo, considerou seu dever deixar sua pátria.
Em 1547, Eduardo VI sucedeu a Henrique VIII no trono da Inglaterra. O excelente Cranmer3, Arcebispo da Cantuária, trabalhava zelosamente na propagação da sã doutrina naquele reino. A Inglaterra era, então, um refúgio para todos os que professavam Jesus Cristo. Pela influência de Cranmer, muitos teólogos eminentes, como Bucer4, Fagius5 e Pierre Martyr6, foram chamados para lá. Foi para esse lugar, então, que Guido de Brès fugiu.
O retorno ao continente e o ministério em Lille
Ele foi cada vez mais confirmado na fé, seu conhecimento se expandiu7, e ele decidiu dedicar-se inteiramente ao serviço do Evangelho. Algum tempo depois, ao saber que os cristãos evangélicos nos Países Baixos desfrutavam novamente de um pouco de paz e que ali havia oportunidade de pregar a Palavra de Deus, atravessou o mar para socorrer seus compatriotas. Ele viajou pelo país, exortando de maneira simples e cristã em todos os lugares onde encontrava ouvintes, por menor que fosse o seu número. Após ter pregado o Evangelho dessa forma nas cidades e no campo, estabeleceu-se em Lille8, lugar onde havia um grande número de fiéis.
Há alguns anos, a Palavra de Deus era pregada ali secretamente: nas casas, nos bosques, em campo aberto e em cavernas subterrâneas, sem que o perigo ao qual se expunham os ouvintes pudesse arrefecer o ardente desejo que tinham de ser alimentados com o pão da vida. Foi o cuidado deste rebanho que Guido de Brès assumiu.
Ele não apenas tinha que fortalecer os fiéis e ganhar novas almas para Cristo, mas também combater erros lamentáveis. Os fanáticos anabatistas haviam conseguido misturar seu joio com a boa semente da Palavra. Seus falsos ensinamentos foram combatidos por Guido com toda a força, e seus esforços incansáveis foram abençoados do alto. A congregação em Lille transbordava de boas obras, e muitos ignorantes foram levados ao conhecimento de Deus.
A ascensão de Filipe II e a intensificação da perseguição
Era um tempo de paz para os Países Baixos. Carlos V, que havia emitido severos éditos contra os cristãos evangélicos, foi finalmente movido pelas calamidades de seu povo e pelas representações feitas a ele pela Regente, sua irmã, a Rainha viúva da Hungria. Ele considerou que seu rigor poderia acarretar consequências perigosas e despovoar aquela bela terra, que sempre lhe fornecera tantos recursos. Consequentemente, nos últimos anos, concedeu maior liberdade religiosa aos habitantes do sul dos Países Baixos.
Em 1555, essa situação chegou ao fim, quando o Imperador Carlos entregou o governo dos Países Baixos a seu filho, Filipe9. Este renovou os éditos de seu pai e ordenou aos governos e magistrados que os executassem com o máximo rigor.

Esses éditos determinavam que todo aquele que aderisse às novas opiniões seria deposto de sua dignidade ou ofício; que todos os homens convencidos de terem adotado a doutrina dos hereges ou frequentado suas assembleias seriam mortos à espada; e toda mulher culpada do mesmo crime seria enterrada viva. Tais penas eram aplicadas mesmo contra aqueles que declarassem renunciar à doutrina evangélica. Os que persistissem nela eram entregues para serem queimados na fogueira. Os habitantes que dessem refúgio aos chamados hereges, ou que, conhecendo-os, não os denunciassem, eram submetidos às mesmas penas.
Filipe, não satisfeito em proclamar e executar esses éditos sangrentos, nomeou um tribunal especial para a erradicação da heresia. Embora não levasse o nome de Inquisição, era uma imagem fiel dela em seus objetivos e nos meios utilizados para alcançá-los. Muitas pessoas foram presas com base em meras suspeitas e torturadas com os testemunhos mais desprezíveis. Os acusados não eram ouvidos na presença de seus acusadores, nem informados do crime que lhes era imputado. Todas as súplicas feitas a Filipe foram em vão. “Prefiro não ser rei”, respondeu ele, “a ter hereges como súditos”.
A congregação de Lille foi uma das primeiras a sofrer com a sede de sangue do Rei. Em 1556, as prisões se encheram e o sangue jorrou dos cadafalsos. Guido de Brès, vendo seu rebanho disperso, dirigiu-se a Gante, onde publicou uma obra, um extrato dos antigos teólogos, com o título: O Cajado da Fé. Desejando aproveitar este tempo de inatividade, foi para Lausanne e Genebra a fim de se dedicar aos estudos10.
No entanto, Deus abençoou as congregações na Bélgica, pois, se a voz dos ministros da Palavra era menos ouvida, o sangue dos mártires falava com poder. As fogueiras e a espada dos inquisidores serviram muito mais para despertar o zelo que animava os cristãos do que para suprimi-lo. Do meio das chamas que consumiam os mártires, surgiam faíscas que espalhavam cada vez mais a doutrina do Evangelho.
Guido de Brès não conseguiu permanecer muito tempo afastado de seus irmãos. Ele retornou aos Países Baixos e fortaleceu as congregações de Tournai, Lille e Valenciennes. Deus o preservou como que no meio do fogo, impedindo que caísse nas mãos de seus inimigos. Todas as congregações reformadas na Flandres desfrutaram, de certa forma, do fruto de seus trabalhos e cuidados. Quando as perseguições se tornaram tão intensas que ele não podia mais pregar ou exortar, dirigiu-se à França e trabalhou para edificar as congregações naquele país, especialmente as de Amiens e Montdidier.

A criação da Confissão Belga
Em meio a todos esses trabalhos, Guido sentiu como seria útil para as congregações reformadas nos Países Baixos se fosse elaborada uma confissão geral de sua fé. Com isso, eles dariam glória a Jesus Cristo, o Deus eternamente bendito e sua única esperança; fariam cessar as calúnias espalhadas contra sua religião por opositores desavergonhados; demonstrariam a semelhança de sua doutrina com a dos protestantes na Alemanha, Suíça e Inglaterra; instruiriam os ignorantes; e, finalmente, seriam eles mesmos fortalecidos e edificados em sua fé santíssima.
Guido de Brès, auxiliado por Adrianus Saravia11 e três ou quatro outros ministros, preparou então uma confissão da fé dos protestantes nos Países Baixos12. Esta confissão foi escrita primeiro em francês, mas imediatamente traduzida para o flamengo. Ele a compartilhou com os ministros e as igrejas, para que fizessem as alterações e melhorias que julgassem adequadas. Assim modificada, apareceu no ano de 1561.
A confissão, hoje conhecida como Confissão Belga, continha trinta e sete artigos opostos à doutrina romana e em conformidade com a Palavra de Deus, como era professada em Genebra. As igrejas holandesas diziam, entre outras coisas, nesta corajosa confissão:
Art. 14: “Rejeitamos, portanto, todo ensinamento sobre o livre-arbítrio que seja contrário a isso, porque o homem não passa de escravo do pecado (Jo 8.34) e ninguém “pode receber coisa alguma se do céu não lhe for dada” (Jo 3.27)”.
Art. 22: “Por isso, dizemos exata e corretamente como Paulo que somos justificados pela fé, independentemente das obras da lei (Rm 3.28). Contudo, não entendemos isto, estritamente falando, com se a própria fé nos justificasse, pois ela é apenas o instrumento com que abraçamos Cristo, justiça nossa.13”
Os reformados nos Países Baixos enviaram esta confissão ao Rei, acompanhada de uma carta na qual diziam: “Embora sejamos cerca de cem mil, comportamo-nos em silêncio e pagamos nossos impostos como os demais habitantes, o que, sem dúvida, é uma prova de que não pensamos em rebelião.” Filipe, porém, viu nesta comunicação uma ameaça e foi por ela apenas mais incitado a prosseguir com suas intenções sanguinárias.
Conflito político e o cerco de Valenciennes
Guido de Brès mudou de residência muitas vezes, dirigindo-se para onde quer que sua presença fosse mais necessária. Ele permaneceu por algum tempo em Sedan, depois foi para Antuérpia e, finalmente, estabeleceu-se em sua antiga congregação em Valenciennes, que o recebeu com grande alegria. Ele já era casado há alguns anos e tinha vários filhos. Em Valenciennes, seu colega de ofício era Péregrin de la Grange, natural de Dauphiné, enviado de Genebra14.
As igrejas evangélicas desfrutavam, então, de um pouco de paz e liberdade, mas isso foi de curta duração. A Duquesa de Parma fora nomeada regente dos Países Baixos em 1559 e, desde o início, mostrou-se zelosa em agradar a Filipe II. Em 1565, ela emitiu um edito que, ao mesmo tempo que ratificava os anteriores, ordenava aos governadores e conselhos que zelassem por sua execução com todo o rigor.
O governo espanhol não temia a oposição dos cristãos evangélicos, mas sim a dos nobres do país e da nação em geral, que estavam exasperados. Os soldados espanhóis enviados ao país, os bispados recém-confirmados e a Inquisição que se queria introduzir na Bélgica eram todos motivos de descontentamento. O novo edito deu origem a uma explosão aberta.
O Príncipe de Orange, que ocupava uma alta dignidade nos Países Baixos, era esclarecido demais para não prever as consequências dessas medidas violentas. Ele escreveu à Regente dizendo que, “dada a disposição do povo, era impossível para os servos do Rei seguir suas ordens sem provocar uma guerra civil”. Acrescentou que, se Sua Alteza estivesse decidida a executar os editos sem restrições, ele desejava ser substituído por alguém mais adequado para auxiliar o Rei.
Mas os outros nobres não foram tão prudentes. Uma confederação foi formada, instigada por Filipe de Marnix, Senhor de Santa Aldegonda15. O objetivo era impedir o estabelecimento da Inquisição. O pacto se espalhou por todas as províncias, e pessoas de todas as classes se apressaram em assiná-lo. A Regente, alarmada, enviou dois nobres para informar Filipe II e entregar-lhe a petição.
Nesse ínterim, espalhou-se o boato de que o Governo havia permitido a prática pública da religião reformada. De fato, por seis ou sete semanas, os ministros pregaram em muitos lugares para grandes assembleias, e todos se alegraram com essa libertação, cujos agentes haviam sido os nobres católicos.
Em algumas cidades, começaram a derrubar as imagens encontradas nas igrejas. Os cronistas da época relatam:
“Isto foi imitado em muitas cidades do país, como se por ordem ou consentimento dos magistrados, com tal rapidez e por tão poucas pessoas desconhecidas, que as testemunhas da queda súbita e geral de tantas imagens foram compelidas a confessar que era uma obra extraordinária do Senhor. Não há dúvida de que muitos foram impelidos por um zelo ardente, entristecidos por terem, por tanto tempo, eles e seus antepassados, adorado como Deus aquelas imagens de pedra e madeira, que viram cair de seus tronos como granizo do céu.”
O exemplo da Flandres foi seguido em outras províncias. Em Valenciennes, a maior parte da população era protestante. Os reformados tomaram posse de duas igrejas e as dedicaram ao culto evangélico. Tudo o que aconteceu na época elevou ao auge a exasperação na corte de Filipe II. De todas as cidades, Valenciennes era a que mais o preocupava, seja pelo grande número de protestantes, seja pela ligação com os huguenotes na França.
A Regente ordenou a Filipe de Noircarmes, governador de Hainaut, que marchasse com um exército sobre Valenciennes. Os habitantes, alarmados, enviaram delegados e se ofereceram para se submeter, sob a condição de não receberem uma guarnição espanhola. Noircarmes foi inflexível. A cidade foi atacada e, após uma resistência obstinada, tomada de assalto. Dias depois, no primeiro auto-de-fé, o governador, seu filho e trinta e quatro habitantes foram condenados à morte, em 13 de março de 1567.

Captura, prisão e testemunho final
Guido de Brès e seu colaborador, La Grange, previram o destino que os aguardava se permanecessem em Valenciennes. Eles tentaram, assim como muitos outros cristãos, escapar do perigo. Mas, depois de vagarem pelo país, perseguidos e cercados, foram finalmente capturados em Saint-Amand. Foram carregados com pesadas correntes e levados para Valenciennes, onde foram lançados numa masmorra imunda e escura. A partir daquele momento, restava-lhes apenas se preparar para o martírio.
A prisão não lhes serviu de refúgio, pois os sacerdotes os visitavam incessantemente para zombar de sua miséria ou para debater com eles. Em 18 de abril, o bispo de Arras veio discutir pontos da doutrina. Ele era um homem astuto que, por algum tempo, ele próprio professara a verdade. “Tenho uma boa opinião de vós”, disse ele a Guido, em tom lisonjeiro. “Sei que não sois obstinado, mas um homem razoável. Estou convencido de vosso zelo por Deus e de que vossa salvação vos é cara.”
O tema da disputa dizia respeito especialmente à Ceia do Senhor. Guido lhe perguntou: “Credes que os Apóstolos cantaram a missa?”
Outras pessoas também debateram com os prisioneiros. Guido de Brès foi acometido de profunda tristeza ao saber que tantos supostos reformados estavam retornando aos erros da igreja romana. Em meio a uma torrente de lágrimas, ele exclamou: “Ai! Ai! Mil vezes ai! Povo infeliz de Valenciennes! Quando ouço sobre a rebelião e a apostasia de tantos, meu coração se parte de dor.”
Ao mesmo tempo, ele se dirigiu àqueles que permaneceram fiéis:
“Meus senhores, meus bons irmãos, minha alegria e minha coroa, sede firmes no caminho de nosso Deus. Não sejais como o caniço, que é movido por todos os ventos, mas, estando arraigados, firmes e inabaláveis, suportai, sem cessar, a provação do Senhor. Se andardes no temor de Deus, Ele voltará Sua face para vós e vos livrará, lançando por terra vossos inimigos, que são os Seus, e vos dará mais liberdade para servi-Lo do que nunca.”
À sua antiga congregação, escreveu:
“Minhas queridas ovelhinhas, orai a Deus sem cessar para que Ele vos conceda perseverança e para que os fracos na fé sejam fortalecidos. Especialmente, não vos esqueçais de mim em vossas orações enquanto eu estiver nesta luta; pois é por vós e por vossa fé que eu luto, e por isso, de bom grado, se for da vontade do Senhor, serei enforcado.”
Seus pensamentos também estavam com sua esposa, seus filhos e sua mãe16. “Vós não tereis mais a possibilidade”, escreveu aos fiéis em Valenciennes, “de me dar continuamente provas de vossa amizade; peço-vos e suplico que as demonstreis à minha pobre esposa e aos meus filhinhos. Pois, pelo serviço ao Filho de Deus e a vós, ela foi privada de seu marido, e seus filhos de seu pai, desde a mais tenra idade. Ajudai a pobre viúva e seus filhos no que ela precisar… Adeus, minhas pobres ovelhinhas, que tudo vos corra bem.”
A esposa de Guido de Brès havia fugido para Sedan com seus filhos. Foi então que ele escreveu a ela e à sua mãe as cartas que se seguem17.
Em sua prisão escura e terrível, eles estavam alegres. A Condessa de Reux, que o visitou por curiosidade, perguntou-lhe como ele podia dormir, comer ou beber, acorrentado com uma corrente tão pesada. Guido respondeu:
“A boa causa que defendo e a boa consciência que Deus me dá fazem-me dormir, comer e beber com mais facilidade do que todos aqueles que me querem mal. Quanto às minhas correntes, longe de me assustarem, eu me regozijo nelas. São para mim uma honra. Considero-as mais preciosas que correntes e anéis de ouro, pois me são muito mais úteis. Sim, quando ouço o som de minhas correntes, parece-me ouvir uma doce melodia. Não que isso proceda da natureza dos grilhões, mas da causa pela qual sou tratado assim: a santa Palavra de Deus.”
As últimas horas e o martírio
Era sábado, 31 de maio, às três horas da manhã, quando o carcereiro entrou na prisão dos dois ministros e lhes pediu que se preparassem para a morte, pois a sentença seria executada às seis horas. Os prisioneiros louvaram e glorificaram a Deus, agradecendo ao carcereiro pela boa notícia.
Guido de Brès levantou-se e foi ao pátio da prisão para saudar os outros prisioneiros.
“Meus irmãos”, disse ele, “hoje fui condenado à morte pela doutrina do Filho de Deus. Louvado seja o Seu Nome! Estou muito feliz. Nunca pensei que Deus me concederia tal honra. Sinto meu rosto se alegrar pela graça que aumenta cada vez mais em mim, e a cada minuto me sinto mais fortalecido.”
Então, exortou os prisioneiros a terem bom ânimo. “A morte não é nada”, disse-lhes.
“Oh, quão bem-aventurados são os mortos que morrem no Senhor! Cuidai para não fazerdes nada contra a vossa consciência, pois vejo que os inimigos do Evangelho usarão de astúcia para vos fazer vacilar, para que vos desvieis da verdade. Vigiai, pois se o fizerdes, tereis um inferno contínuo em vossa consciência. Oh, irmãos, como é agradável ter uma boa consciência!”
Um dos prisioneiros perguntou-lhe se havia terminado certos escritos que começara.
“Não”, respondeu ele, “nem trabalharei mais, pois vou descansar no céu. O tempo da minha partida está próximo; vou colher no céu o que semeei na terra. Combati o bom combate, terminei a corrida e fui fiel ao meu Comandante. Agora está reservada para mim a coroa que o justo Juiz me dará.”
Depois de outras exortações, acrescentou com um rosto alegre e sorridente:
“Parece que meu espírito tem asas para voar ao céu, pois hoje estou convidado para as bodas do meu Senhor, o Filho de Deus.”
Enquanto ele falava, o carcereiro entrou e, levando a mão ao chapéu, saudou-o. “Desagrada-me que tenha acontecido assim”, disse o homem, comovido. “Vós sois meu amigo”, respondeu Guido, retribuindo a saudação, “eu vos amo de todo o coração”. Em seguida, dirigiu-se ao pequeno salão da prisão, após se despedir dos prisioneiros.
La Grange, que durante toda a sua prisão se mostrara alegre, também falou a todos com semblante amigável:
“Meus irmãos, fui condenado à morte pela doutrina do Filho de Deus, e agora vou para a vida eterna. Meu nome está escrito no livro da vida e de lá não pode ser apagado, pois o chamado de Deus é irrevogável.”
Ao entrar no salão, depois de exortá-los a se guardarem da doutrina papista, pediu uma escova para limpar suas roupas e mandou engraxar seus sapatos, dizendo que o fazia “porque estava convidado para as bodas e ia para o banquete do Cordeiro.”
Outros prisioneiros se aproximaram e, vendo-o com pão e vinho, perguntaram se ele seria conduzido à morte com os dois ferros que tinha na perna. Ele respondeu: “Eu gostaria que me enterrassem com eles, como testemunhas de sua crueldade.” Quando estes irmãos o consolaram, ele disse que sentia tal alegria em seu coração que não tinha língua nem boca para expressá-la, e que Deus lhe mostrava dez mil vezes mais graça ao tirá-lo desta vida miserável desta forma do que se o deixasse morrer em sua cama. Pois agora estava em perfeito juízo e pedia a Deus por Sua misericórdia até o fim. Depois, exortou os presentes a aceitarem com gratidão o benefício de terem sido chamados ao conhecimento do Evangelho, uma graça não concedida a todos.
Pouco depois, os dois servos de Cristo foram levados à Prefeitura para ouvirem a leitura da sentença. Foram condenados à forca. Sem mencionar a doutrina que pregaram, a acusação insistiu apenas que eles haviam administrado a Ceia do Senhor, apesar da proibição. Em seguida, foram levados à praça do mercado.
La Grange foi o primeiro a ser executado. Sentado na escada, clamou em alta voz que morria unicamente pela verdade de Deus e tomava o céu e a terra como testemunhas.
Guido de Brès, ao chegar ao local da execução, prostrou-se ao pé da escada para orar, mas foi imediatamente levantado e forçado a subir. Na escada, virou-se para o povo e o exortou a respeitar o magistrado, revelando a submissão cristã que o animava. Depois, incitou os fiéis a perseverarem na doutrina que lhes havia anunciado, testemunhando que pregara a pura verdade de Deus e o Evangelho da salvação eterna, pelo qual estava sendo morto.
Não o deixaram terminar. O comissário acenou para que o carrasco se apressasse. Este empurrou Guido de Brès da escada, que pouco depois entregou o espírito.
Legado e conclusão
Esta morte, narram as crônicas da época, causou diversas e fortes impressões nas testemunhas. Os soldados que cercavam o cadafalso correram em desordem pela cidade, atirando naqueles que encontravam, fossem católicos ou de outra fé, e matando-se uns aos outros. Muitos foram feridos, e alguns caíram mortos. Assim, Deus glorificou Sua força, como quando o Senhor disse “Sou eu”, e as tropas enviadas para prendê-Lo caíram por terra, nada podendo fazer até que Ele voluntariamente se entregou em suas mãos.
A morte de Guido de Brès e a tomada de Valenciennes foram o sinal para uma perseguição nova e mais terrível. O dito geral era que a Governadora havia reencontrado em Valenciennes as chaves perdidas de todas as cidades holandesas. Hertogenbosch, Antuérpia e várias outras cidades receberam guarnições. Muitos pregadores reformados tiveram que ir para o exílio, e o livre exercício da religião purificada, que havia sido vislumbrado por um instante, parecia totalmente subjugado.
Mas Deus não permitiu que a luz por Ele acesa se apagasse completamente. Por dois séculos e meio, essa luz brilhou intensamente nos Países Baixos, unido em torno da confissão de de Brès. E quaisquer que sejam as névoas que hoje se acumulem ao redor da verdade que vem de Deus, um dia (isto se pode esperar do Senhor), aquela súplica dos Antigos Países Baixos se mostrará ouvida, também para a sua posteridade: “Ó Sol da justiça, ilumina-nos!18”
Informações sobre a Tradução: A presente publicação consiste em uma tradução livre integral de “Guido de Brès opsteller van de Nederlandse Geloofsbelijdenis in zijn leven en sterven”. O texto aqui apresentado recebeu o título em português “Guido de Brès autor da Confissão Belga em sua vida e morte”. Nossa tradução baseia-se na edição holandesa da Stichting De Gihonbron. A obra holandesa é uma compilação e tradução de fontes históricas do século XVI, originalmente escritas em francês e de autoria diversa.
STICHTING DE GIHONBRON. Guido de Brès: opsteller van de Nederlandse Geloofsbelijdenis in zijn leven en sterven en enige brieven. Middelburg: Stichting de Gihonbron, 2004.
Nota Editorial (para Publicação Web): Para esta publicação online, alguns títulos de seção (tópicos) e as imagens foram inseridos pelo editor com o objetivo de otimizar a leitura e a experiência visual do usuário. O texto bíblico utilizado é da Bíblia Almeida Revista e Atualizada (ARA).
Nota:
- Provavelmente o monge em questão foi Girolamo de’ Capitani. Ele era um monge agostiniano italiano enviado à província de Hainaut (cuja capital é Mons) em meados do século XVI, por volta da década de 1540, especificamente para combater a crescente influência das ideias protestantes na região. [N. do E.] ↩︎
- O pai de Guido de Brès, cujo nome era Jean de Brès, era pintor de vitrais. [N. do E.] ↩︎
- Thomas Cranmer (1489-1556), Arcebispo da Cantuária, foi a figura central que moldou a Igreja da Inglaterra segundo os princípios da fé reformada. Apesar de uma evolução teológica gradual, sua liderança foi decisiva. Suas contribuições fundamentais se deram em três áreas interligadas: 1) Liturgia: Criou o Livro de Oração Comum, que substituiu o latim pelo inglês e estruturou o culto com base nos princípios da Reforma, como a centralidade das Escrituras e a participação da congregação. 2 Doutrina: Foi o principal autor dos Artigos de Religião, que estabeleceram a base confessional reformada para a Igreja inglesa. 3) Alianças: Manteve forte aliança com reformadores da Europa continental, convidando teólogos como Martin Bucer e Pedro Mártir Vermigli para ensinar na Inglaterra, garantindo que a Reforma Inglesa estivesse conectada ao movimento protestante europeu. Sua trajetória terminou com seu martírio. [N. do E.] ↩︎
- Martin Bucer (1491-1551) foi um influente reformador protestante alemão de Estrasburgo, conhecido por seu incansável esforço em mediar as disputas teológicas da época. [N. do E.] ↩︎
- Paul Fagius (1504-1549), nascido Paul Büchlein, foi um proeminente reformador alemão e um dos mais notáveis hebraístas de sua geração, trabalhando em estreita colaboração com Martin Bucer. [N. do E.] ↩︎
- Pietro Martire Vermigli (1499-1562), foi um dos mais eruditos e influentes teólogos da Reforma Protestante. Nascido em Florença e originalmente um abade de alta reputação dentro da Ordem Agostiniana, sua profunda imersão nos escritos de reformadores como Martin Bucer e nas epístolas paulinas levou-o a abraçar a fé protestante, forçando seu exílio da Itália. [N. do E.] ↩︎
- A formação teológica inicial de Guido de Brès pode ser resumida em duas etapas. Começou com um período de autodidatismo fervoroso nas Escrituras após sua conversão. Forçado ao exílio, continuou seus estudos em Londres por volta de 1548, junto à comunidade de refugiados valões e sob a provável influência de Jan Laski (John a Lasco). [N. do E.] ↩︎
- Durante grande parte de sua história, incluindo o período da Reforma Protestante, Lille não era parte da França. Por séculos, Lille pertenceu ao Condado de Flandres e foi uma das suas cidades mais importantes. Como tal, fez parte dos Países Baixos Espanhóis (governados pelos Habsburgos) até ser conquistada e anexada definitivamente pela França em 1668, durante o reinado de Luís XIV. [N. do E.] ↩︎
- Um ponto importante é que, embora a dinastia de Carlos V (Habsburgo) fosse de origem austríaca e ele tenha se tornado Rei da Espanha e Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, sua origem era flamenga. Nascido e criado nos Países Baixos, sua língua materna era o francês, o idioma da nobreza local, o que lhe garantia certa aceitação. Já seu filho, Filipe II, era visto como um estrangeiro espanhol, apesar de ter herdado os tronos da Espanha, dos Países Baixos, as possessões na Itália e todo o império colonial espanhol. [N. do E.] ↩︎
- Essa é a terceira etapa da formação teológica de Guido de Brès: seu período de estudos formais em centros reformados como Genebra e Lausanne, que aprofundou seu conhecimento e preparou-o para o ministério. [N. do E.] ↩︎
- Adrianus Saravia (c. 1532-1613) foi um teólogo reformado de origem flamenga-espanhola que representa uma fascinante ponte entre a Reforma Continental e a Igreja da Inglaterra. Inicialmente um pastor nos Países Baixos, ele foi um dos coautores da Confissão Belga e lecionou teologia na Universidade de Leiden, estando firmemente inserido na tradição reformada continental. Após se mudar para a Inglaterra, no entanto, ele se tornou um dos mais fortes defensores do episcopado (governo por bispos), argumentando que esta era a forma de governo da igreja estabelecida pelos apóstolos, uma posição contrária à da maioria das igrejas reformadas. Tornou-se amigo íntimo do teólogo anglicano Richard Hooker e também contribuiu para a tradução da Bíblia King James, terminando sua carreira como um clérigo respeitado dentro da Igreja da Inglaterra. [N. do E.] ↩︎
- Os outros ministros envolvidos foram: 1) Herman Moded (ou Hermannus Modet): Um pregador reformado itinerante, conhecido por sua atuação em Antuérpia e outras cidades dos Países Baixos. Ele foi uma figura importante nos primeiros sínodos e na organização das igrejas perseguidas. 2) Godfried van Wingen (ou Godefridus Wingius): Outro pastor influente na região, que também participou ativamente do movimento reformado e auxiliou na articulação teológica da confissão. 3) Além desses colaboradores diretos, é crucial mencionar Franciscus Junius, que em 1566 foi encarregado pelo Sínodo de Antuérpia de revisar o texto da Confissão. Sua revisão ajudou a aprimorar a linguagem e a clareza teológica do documento antes que ele fosse amplamente adotado pelas igrejas. [N. do E.] ↩︎
- As Três Formas de Unidade das Igrejas Reformadas — A Confissão Belga, O Catecismo de Heidelberg e Os Cânones de Dort, Segunda edição., (Recife, PE: Editora CLIRE, 2009), 26–27. [N. do E.] ↩︎
- Enviado por Genebra para fortalecer o protestantismo nos Países Baixos Espanhóis, Péregrin de la Grange tornou-se um pregador influente em Valenciennes. Suas pregações ao ar livre atraíam multidões de trabalhadores, transformando a cidade em um reduto reformado. Durante a fúria iconoclasta de 1566, ele e Guido de Brès lideraram a cidade, fortificando-a contra as forças espanholas. A recusa em aceitar uma guarnição militar levou ao Cerco de Valenciennes (1566-1567), no qual La Grange incitou a população a resistir. Após a rendição da cidade sob bombardeio, ambos foram capturados ao tentar escapar e, após um julgamento, condenados à morte. [N. do E.] ↩︎
- Philips van Marnix (1540-1597). Foi uma das figuras mais versáteis e influentes da Revolta Holandesa contra a Espanha no século XVI. Ele foi um estadista proeminente, diplomata, teólogo, escritor satírico e conselheiro de confiança de Guilherme de Orange, o líder da rebelião. Nascido em Bruxelas em uma família nobre, Marnix estudou teologia em Genebra sob a tutela de João Calvino e Teodoro de Beza, o que moldou profundamente sua fé reformada e sua visão de mundo. Ele se tornou um defensor fervoroso da causa protestante e da independência dos Países Baixos do domínio opressivo do Rei Filipe II da Espanha. [N. do E.] ↩︎
- Guido de Brès havia se casado com Catherine Ramon. Ela era natural da região de Tournai, uma cidade na mesma província de Hainaut (onde ficavam Mons e Valenciennes).Eles tiveram cinco filhos. [N. do E.] ↩︎
- Essas cartas também estão disponíveis no site da Editora Via Continental. [N. do E.] ↩︎
- Essas palavras têm sua origem em Malaquias 4.2, que diz: “Mas para vós, os que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça, e salvação trará debaixo das suas asas”. “Ó Sol da justiça, ilumina-nos!”, se tornou o grito de guerra espiritual e intelectual dos Países Baixos durante a Reforma. Depois em 26 de março de 1636, a Universidade de Utrecht adotou o lema “Sol Iustitiae Illustra Nos”. [N. do E.] ↩︎