Categoria | Ministério

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Meu primeiro sermão

O primeiro desafio de um proponente

Jan Dirk van der Velden | VDM
08/09/2025

Lectori salutem1.

Há alguns anos, em dias chuvosos durante as minhas férias, fiz algumas anotações sobre o meu trabalho pastoral2. Mais tarde, elas foram elaboradas. São apenas “esboços avulsos”. Não se trata de uma “Casa Paroquial de Mastland”3, mas sim, como as talvez conhecidas “Folhas Soltas do Meu Livro Pastoral”, uma partilha de algumas experiências da vida de pastor4. Talvez possam servir de instrução.

Embora o nome do autor seja conhecido por alguns, para a publicação destes Esboços, adotei um pseudônimo. E, como sempre foi a escolha da minha vida, ser um “Guia” para jovens e idosos como Servo da Palavra, meus olhos recaíram sobre o nome grego “Alfeu”.

Se, sob a bênção de Deus, estes esboços puderem servir de guia no caminho da vida, o desejo do autor será cumprido.

Janeiro de 1924.

Meu Primeiro Sermão

Mal havia sido declarado elegível para o ministério nas igrejas reformadas, recebi um telegrama de uma das capitais provinciais do Norte, pedindo-me para pregar no domingo seguinte devido a um impedimento inesperado do Ministro da Palavra5. Essa situação, no entanto, não era de forma alguma o que eu, como estudante, tinha imaginado. Em primeiro lugar, eu preferia pregar em uma igreja muito pequena, para um número reduzido de ouvintes simples. Pensei imediatamente em telegrafar uma recusa.

Contudo, um bom conhecido me deu um conselho sensato e bem-intencionado: “Vamos, faça isso, ajude a igreja, não crie dificuldades. Se você pregar logo para uma congregação maior, superará o obstáculo de uma vez por todas.” Bem, isso era fácil de dizer, mas, quando chegou a hora, não me atrevi a recusar. Jamais esquecerei aquele sábado, aquela viagem para o Norte! Fiquei hospedado na casa de um casal piedoso e simpático, em meio a uma família acolhedora. Isso já foi encorajador. Chegou a manhã de domingo e, com ela, o meu primeiro sermão.

Uma grande multidão havia se reunido em uma das maiores salas da cidade. Quase perdi a coragem. Mas se alguma vez experimentei a força do voto “O nosso socorro está em o nome do SENHOR, criador do céu e da terra.” (Salmo 124.8), foi naquele momento. Aquilo se tornou uma verdade de vida, uma parte da minha experiência6. E, mais tarde, eu não gostaria de ter começado um único culto com outra palavra que não fosse essa! Era como se eu derramasse minha alma naquela única frase: “A ajuda para e durante o Serviço da Palavra, para a congregação e para o pregador, vem do Todo-Poderoso e, portanto, não há o que temer!”.

Meu texto foi Sofonias 3.16-18a. Sem que eu soubesse, uma comissão do conselho da igreja de uma congregação vizinha estava lá para ouvir o jovem candidato. Mais tarde, ficou claro para mim porque o Senhor havia guiado meu caminho para lá naquele domingo. Ele queria abrir o caminho para o lugar onde eu serviria pela primeira vez como Ministro da Palavra. Poucos dias depois, recebi o meu primeiro chamado, e, embora outros se seguissem, eu entendi que, nesse primeiro chamado, deveria ver o dedo de Deus, a voz de meu Enviador.

Um encontro marcante ainda estava conectado àquele primeiro domingo, à minha primeira pregação. Sentados à noite no círculo amigável do anfitrião e sua esposa, havia alguns irmãos e irmãs da igreja. Entre outras coisas, contei sobre as direções do Senhor e como, naquele dia, eu tinha visto o início da resposta à minha oração; mas também como naquela manhã aquela primeira palavra me fortaleceu tanto que todo o medo me deixou.

Então, um membro simples da congregação me disse: “Essa também foi a resposta à minha oração por você, e preciso lhe contar algo. Há alguns dias, encontrei na rua alguém que me abordou e fez algumas críticas ao conselho da igreja. ‘Adivinhe o que eles estão fazendo agora’, ele disse. ‘Neste domingo, um jovem vai pregar aqui pela primeira vez na vida dele. Imagine o que vai ser em uma igreja tão grande!’ Eu não respondi nada. Eu não conhecia esse jovem, nem sequer sabia seu nome. Mas isso se tornou um motivo de oração para mim. Eu implorei ao Senhor por esse jovem amigo, a quem eu não conhecia, que estava prestes a trazer a Palavra de Deus pela primeira vez em meio à congregação. Isso não me deixou em paz. E quando você pregou, pude agradecer a Deus por Ele ter respondido à minha oração por você.”

Foi para mim a primeira indicação clara e prática de quão necessária é a oração da congregação por um Ministro da Palavra; que bênção é quando se encontra uma congregação que ora; quando há aqueles que como Arão e Hur sustentam Moisés. Acredite, o pregador pode saber se há oração por ele e por seu trabalho. E não estaria a queixa de pouca bênção espiritual relacionada a pouca oração pelo Ministro da Palavra?


Informações sobre a Tradução: A presente publicação consiste em uma tradução livre integral de “Mijn eerste preek”. O texto aqui apresentado recebeu o título em português “Meu primeiro sermão”, extraído do livro “Losse schetsen uit het pastorale leven” [Esboços avulsos da vida pastoral].

ALFEÜS. Losse schetsen uit het pastorale leven [Esboços avulsos da vida pastoral]. Rotterdam: J. P. Unger, 1924.

Nota Editorial (para Publicação Web): Para esta publicação online, alguns títulos de seção (tópicos) e as imagens foram inseridos pelo editor com o objetivo de otimizar a leitura e a experiência visual do usuário. O texto bíblico utilizado é da Bíblia Almeida Revista e Atualizada (ARA).


Notas:

  1. Expressão latina cujo significa é “Saudações ao leitor”. [N. do E.] ↩︎
  2. Esse trecho serve como uma espécie de prefácio para a obra “Esboços Avulsos da Vida Pastoral”. O livro é uma compilação das experiências do autor ao longo de seu ministério. [N. do E.] ↩︎
  3. O livro “A Casa Paroquial de Mastland” (ou “A Reitoria de Mastland”) foi escrito por Maarten Maartens, pseudônimo do autor holandês Joost Marius Willem van der Poorten Schwartz (1858–1915). A obra é uma série de contos ou “esboços” que oferecem um olhar humorístico e sério sobre a vida de um pastor e sua congregação em uma pequena vila holandesa chamada Mastland. O livro reflete as observações e o estilo de vida de um pastor reformado no contexto da Holanda do século XIX. [N. do E.] ↩︎
  4. “Losse bladen uit mijn pastoraalboek” (Folhas Soltas do Meu Livro Pastoral) foi escrito por C. E. Koetsveld, um pastor e autor holandês do século XIX. O livro é uma coleção de esboços e anedotas da vida pastoral que serviu de inspiração ou referência para outros pastores que escreveram obras semelhantes. [N. do E.] ↩︎
  5. Jan Dirk van der Velden (1859-1947). Este pastor reformado holandês, conhecido por seu trabalho pastoral e autoria prolífica, usou o pseudônimo “Alfeus”. A escolha do pseudônimo por Van der Velden não foi aleatória. Ele mesmo explicou que a palavra grega “Alfeus” (Ἀλφειός) significava “líder” ou “guia”, e ele via sua vocação como um “Servo da Palavra” para liderar jovens e idosos. Embora uma pesquisa etimológica revele que o termo grego na verdade significa “esbranquiçado” (referente a um rio na mitologia grega) ou “mudança” (se considerarmos o nome como de origem hebraica), a intenção de Van der Velden de se apresentar como um guia permanece como a motivação por trás da escolha do pseudônimo. A vida e o ministério de Van der Velden foram profundamente influenciados por seu engajamento no movimento da Doleantie de 1886. Este movimento de “Lamentação”, liderado por Abraham Kuyper, foi uma importante secessão na Igreja Reformada Holandesa, motivada pela oposição ao liberalismo teológico e ao desejo de retorno à pureza da fé reformada. Seu papel ativo nesse evento histórico moldou sua teologia e prática pastoral. [N. do E.] ↩︎
  6. Nas igrejas reformadas, no início do culto há o que chamamos de “votum”, normalmente proferido com as palavras do Salmo 124.8. O votum é: uma onfissão de dependência, uma preparação para o culto e o início do diálogo pactual com Deus. Dessa forma, a congregação primeiro se humilha diante do Senhor e reconhece Sua grandeza, antes de ouvir a Sua Palavra e receber Sua saudação. [N. do E.] ↩︎

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