Categoria | Vida Cristã

Gratuito

No Princípio: o novo lar

Quando te assentas em tua casa: meditações para a convivência familiar

Abraham Kuyper | Doutor
09/09/2025

No princípio, criou Deus os céus e a terra (Gênesis 1.1).

Já na primeira palavra com que a Sagrada Escritura se inicia, reside um significado muito mais profundo do que o leitor apressado imagina1. Com efeito, aquele solene “No princípio” não vos diz apenas que o mundo antes não existia e que passou a existir porque Deus o criou; também implica que Deus estabeleceu um começo e, com isso, instituiu em toda a sua criação a distinção entre o início de algo e o seu desenvolvimento posterior.

Essa distinção nos é familiar. Compreendemos muito bem que o nascimento de alguém é distinto de sua vida subsequente, e que a conversão de uma pessoa é algo diferente de sua caminhada em fé e santificação. Para nós, essa separação entre o princípio e a continuidade de algo está traçada em todo o nosso caminho, clara como o dia.

Contudo, isso não anula o fato de que essa mesma distinção, que penetra e rege toda a nossa vida, não surgiu por si mesma, mas foi instituída por Deus. Por essa razão, há muito mais nela do que comumente pensamos.

De fato, este notável aspecto — que tudo na terra não tem apenas um curso, mas também um começo — é de tal importância que os sábios deste mundo, desde todas as eras, se empenharam em negar que o mundo teve um princípio. Sim, para quem vê mais profundamente, toda a diferença entre a sabedoria do mundo e a Sagrada Escritura se resume a este único ponto: a Escritura sempre nos aponta para esse começo, dá toda a ênfase a ele e dele deduz todo o desenvolvimento posterior. Em contrapartida, a sabedoria do mundo está sempre empenhada em apagar, anular e negar esse começo, a fim de proclamar a mentira de que o mundo sempre existiu e é eterno como Deus2.

Se você tomar um grão de cereal em sua mão, verá que nesse pequeno grão reside a capacidade de se desenvolver em uma haste e produzir a espiga. Mas, enquanto o mantiver em sua mão, nada acontecerá. Somente quando você o lança na terra arada e o cobre com solo é que a ação se inicia. Ao fazer isso, você estabelece o começo do seu desenvolvimento. Se não o fizesse, mas o deixasse sobre a mesa, não haveria começo algum. Esse início, portanto, só se realiza porque você faz algo ao grão que acontece apenas uma vez e, com isso, se encerra. Uma vez estabelecido o começo, o desenvolvimento segue por si mesmo.

O próprio Jesus ilustrou isso de forma eloquente na parábola de Marcos 4, quando falou do homem que “lançasse a semente à terra; depois, dormisse e se levantasse, de noite e de dia, e a semente germinasse e crescesse, não sabendo ele como” (Marcos 4.26-27). Também aqui, essa mesma profunda distinção é indicada de forma nítida e clara. O começo ocorre porque aquele homem lança a semente à terra; o desenvolvimento, então, segue por si mesmo, sem que ele saiba como.

O que é verdade para o mundo e para a natureza, também é verdade em nossa vida humana.

Muitas coisas nos parecem difíceis, mas a experiência ensina que tudo corre bem, uma vez que se tenha começado. O primeiro passo, como diz o ditado, é o que custa; os passos seguintes vêm por si mesmos.

Quem precisa redigir um texto ou escrever uma carta importante sente imediatamente como é difícil começar, mas também como tudo flui melhor depois que se supera essa etapa inicial.

Quem não está acostumado a falar e precisa se apresentar em público, sente o coração bater mais forte antes de começar. No entanto, uma vez em andamento, entra no ritmo e o sentimento de apreensão desaparece.

Quando dez pessoas precisam fazer algo juntas, a questão é sempre quem começará, quem será o primeiro a pôr a mão na massa. Uma vez que um tenha começado, seguir e acompanhar é muito mais fácil para os outros.

Assim, sentimos e notamos repetidamente em nossa própria vida o quanto mais está contido no começo de algo do que em sua continuidade. O começo é muito mais importante, exige um esforço muito maior, requer muito mais de nós. E por que é assim? Porque naquele único começo reside, na verdade, a força motriz para todo o desenvolvimento posterior3.

Quem vai construir uma casa precisa primeiro lançar o fundamento, e sente muito bem que na regularidade e na solidez desse alicerce reside a garantia para toda a construção que se seguirá. Todo começo é o lançamento de um fundamento sobre o qual se continuará a construir; e é precisamente por isso que todo começo é tão difícil.

Quem é piedoso, por isso, compreende profundamente o quanto depende de fazer esse começo com o seu Deus ou sem Ele. Daí a solene palavra de consagração, que está na alma e nos lábios do filho de Deus ao estabelecer cada início: “O nosso princípio seja em o nome do SENHOR, criador do céu e da terra.4

Deus estabeleceu o começo de todo começo quando, no princípio, criou o céu e a terra. E assim o piedoso busca, para todo começo que tem de fazer, sua força e fortaleza Naquele que se tornou a origem de todos os princípios, precisamente porque Ele fez o céu e a terra. Isso não se refere apenas ao fato de que em Deus está todo o poder, mas também que d’Ele procede todo começo, e que o filho de Deus não quer tomar seu princípio em coisa alguma fora de seu Deus.

E, no entanto, é lamentável que, tantas vezes, o mais importante de todos os começos entre os homens seja feito de forma tão impensada e tão à parte do nosso Deus.

Isso se nota especialmente no começo de uma vida no lar.

Há dois que se amaram e agora vão se casar; e, depois de casados, começarão um lar. Poucas coisas podem ser iniciadas entre os homens com uma importância tão preponderante e que governe tanto o futuro. A fundação de um lar é o estabelecimento de uma família, o início de uma linhagem, o alicerce para uma vida em comum até a morte. É a criação de um pequeno círculo próprio na vida, do qual tudo se espera e pelo qual o futuro do marido, da esposa e, em breve, de seus filhos e netos, será regido.

Certamente, todos estão tão cientes da importância deste assunto que se celebra uma festa, preparam-se todas as coisas e gasta-se uma soma de dinheiro que, de outra forma, não se cogitaria. E também admitimos que quem vive de forma piedosa e devota não fará um começo tão importante à parte de seu Deus. Geralmente, até mesmo se apresentam no meio da congregação para invocar a oração de todos e ouvir a bênção do Senhor ser pronunciada sobre o seu casamento. Aqueles que o fazem sem essa bênção são poucos.

Ainda assim, se perguntarmos se, em tais dias, realmente se compreende, se sente e se vivencia o que significa fazer um começo tão extremamente importante, que governará todo o futuro, a resposta é, com demasiada frequência, decepcionante.

Nesses dias, as pessoas estão ocupadas demais. Há tanta distração e dispersão. O estímulo do prazer é muito forte. E quando, finalmente, se sentam lado a lado na igreja, ajoelham-se e se dão as mãos em sinal de fidelidade, ah, quão poucos são aqueles que, em tal momento, fizeram algo mais do que participar de uma solenidade na qual acharam maravilhoso serem os personagens principais.

Infelizmente, de quantos não se deve lamentar que eles mais se deixaram casar pelos outros e segundo as regras da tradição, do que verdadeiramente fizeram eles mesmos um começo — o começo de uma nova vida, de um futuro inteiramente novo. As tristes consequências desse agir impensado, fora da consciência, fora do coração e à parte de Deus, não tardam a se manifestar5.

O começo foi feito, e eis que a nova vida se inicia. Também aqui vale a regra de que a vida será como o seu começo.

É, portanto, da mais extrema importância que marido e mulher, desde o início, já no primeiro dia de convivência, se deem conta do novo futuro que enfrentam. Que não vivam simplesmente sem pensar, mas o iniciem de tal modo que dele possa crescer uma vida em comum consagrada a Deus e feliz.

Pois daquele primeiro começo, formado na cerimônia do casamento, fluem agora toda sorte de outros princípios. É preciso começar a vida doméstica; um começo na vida do marido para com sua esposa e da esposa para com seu marido; um começo da vida de ambos com suas demais relações familiares. É preciso estabelecer um começo na maneira como juntos servirão a Deus, cuidarão dos pobres, organizarão a tarefa diária, agirão em caso de divergência de opiniões, administrarão seu dinheiro, se portarão perante seus empregados e regularão todo o padrão de sua vida.

Muito disso começa já no primeiro dia. Mas também nos dias que se seguem, o casal se encontrará constantemente diante de novas escolhas, novas decisões e da introdução de novos hábitos que, uma vez iniciados, se tornarão em breve lei e regra tácitas.

Poderá ser bom diante de Deus se tudo isso acontecer ao acaso, se ocorrer sem reflexão, se o casal, de forma leviana, deixar que sua vida doméstica simplesmente se torne o que vier a ser, em vez de eles mesmos, com consciência e como fruto de deliberação, se empenharem em regular tudo segundo a Palavra de Deus e a exigência de seu santo Evangelho?

É isso que acontece quando não se atenta para a diferença entre o começo de algo e o seu desenvolvimento posterior. Embora se ore por uma bênção, como poderia essa bênção vir, se momentos tão importantes são vividos não como duas pessoas que refletem e receberam a Palavra de Deus como regra, mas como dois passarinhos que constroem um ninho6?

Buscai a bênção, isso é bom, mas buscai-a Naquele que Ele mesmo estabeleceu o começo de todas as coisas, quando criou o céu e a terra, e que vos chamou, como criados à sua imagem, para a santa tarefa de também em vossa vida, de maneira humana, estabelecer e formar um começo, e fazê-lo com toda a seriedade que tão santa causa exige.

Ou de quem mais será a culpa, se em breve as consequências do começo impensado vos causarem um amargo arrependimento? Quando houver confusão em vez de ordem, desperdício em lugar de mordomia, divisão em vez de amor, e ressentimento onde poderia haver felicidade? E quando, dessa maneira, a vida doméstica, longe de vos edificar, consolar e santificar, corromper vosso caráter, inflamar vossas paixões e desordenar vosso coração?

É verdade que, mesmo com uma conversão posterior, muito do que foi inicialmente corrompido ainda pode ser corrigido; mas não é muito mais glorioso e feliz quando o caminho certo é trilhado desde o princípio?

E não estariam os pais em uma posição mais elevada e mais livres diante de Deus, se eles não apenas providenciassem vestuário e mobília para seus filhos que vão se casar, mas também, e acima de tudo, insistissem naquele único ponto: que eles façam o começo de seu casamento no nome do Senhor, isto é, que o estabeleçam em tudo segundo a exigência bem ponderada de sua santa Palavra?


Informações sobre a Tradução: A presente publicação consiste em uma tradução livre integral de “In den beginne. (het nieuwe huishouden)”. O texto aqui apresentado recebeu o título em português “No Princípio: o novo lar”, extraído do livro “Als Gij in uw huis zit: meditatïen voor het huislijk saamleven” [Quando te assentas em tua casa: meditações para a convivência familiar].

KUYPER, A. Als Gij in uw huis zit: meditatïen voor het huislijk saamleven [Quando te assentas em tua casa: meditações para a convivência familiar]. 3. ed. Amsterdam: Höveker & Wormser, 1927.

Nota Editorial (para Publicação Web): Para esta publicação online, alguns títulos de seção (tópicos) e as imagens foram inseridos pelo editor com o objetivo de otimizar a leitura e a experiência visual do usuário. O texto bíblico utilizado é da Bíblia Almeida Revista e Atualizada (ARA).


Notas:

  1. Este texto é o primeiro capítulo da obra de Abraham Kuyper, Als Gij in uw huis zit: meditatïen voor het huislijk saamleven [Quando te assentas em tua casa: meditações para a convivência familiar]. O objetivo da obra foi definido pelo autor em seu prefácio, afirmando que o livro nasceu do “desejo, tantas vezes expresso, de que houvesse um livro adequado para ser dado a recém-casados na formação de uma nova família. Até mesmo os conselhos de igreja sentem essa necessidade por ocasião da celebração de casamentos. Como uma tentativa de responder a essa demanda, escrevi e reuni as meditações que estão compiladas neste volume.” [N. do E.] ↩︎
  2. Quando a sabedoria mundana rejeita a Palavra de Deus, ela nega o Princípio fundamental de que o universo, a humanidade e suas estruturas, como a família, não são acidentais, mas sim criações intencionais de um Deus soberano, dotadas de propósito e ordem. Nessa perspectiva, instituições como o casamento e a família não são meras invenções humanas ou contratos sociais, mas estruturas divinamente estabelecidas “no princípio” para o florescimento humano, cujos papéis e funções possuem um significado que transcende a preferência individual ou cultural. Em contrapartida, ao remover esse fundamento, a ideia de um Criador intencional é substituída por um processo não guiado de seleção natural e mutações aleatórias. O resultado é uma realidade onde não há um “princípio” com propósito, apenas uma cadeia causal material. Como consequência, instituições como o casamento tradicional e os papéis de gênero passam a ser analisados sob a ótica de dinâmicas de poder; são vistos não como ordenanças divinas, mas como estruturas. [N. do E.] ↩︎
  3. Esta ideia evoca a imagem da semente citada anteriormente. [N. do E.] ↩︎
  4. O texto faz uma paráfrase do votum, a solene declaração de dependência baseada no Salmo 124.8. Nas igrejas de tradição reformada continental, este voto é proferido no início do culto para expressar a total confiança da congregação no Senhor. Da mesma forma que confessamos nossa dependência d’Ele ao iniciar o culto, devemos confessá-la humildemente em cada novo começo em nossas vidas, especialmente no casamento. [N. do E.] ↩︎
  5. Kuyper lamenta que a cerimônia do casamento frequentemente perca seu significado de um começo divinamente instituído, vivido em humilde dependência de Deus. Ele questiona a superficialidade da celebração, que, na sua época (e talvez ainda hoje), desviava-se para a preocupação com tradições, modas e aparências, ofuscando a centralidade da Palavra de Deus e do votum (Salmo 124.8) que deveriam fundamentá-la. [N. do E.] ↩︎
  6. A metáfora de Kuyper é uma crítica contundente à abordagem do casamento como um ato puramente instintivo, motivado por impulsos naturais, tal como ‘passarinhos construindo um ninho’. Kuyper ressalta que essa visão, influenciada pela sabedoria mundana, ignora a deliberação espiritual e a fundação consciente na Palavra de Deus, que distingue a união cristã de uma união meramente natural. [N. do E.] ↩︎

Compartilhar

WhatsApp
Telegram
Facebook
X

Fazer comentário

Assine agora e tenha acesso completo

Conteúdos que eleva seu conhecimento intelectual a outro nível!