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Deus no centro do sim

Reflexões sobre a cerimônia de casamento e o seu propósito

Elienai B. Batista | VDM
09/09/2025

A leitura de um texto de Abraham Kuyper, publicado aqui e intitulado “O Princípio: o novo lar”, instigou-me a refletir sobre a cerimônia de casamento. Por que a realizamos? O que os noivos verdadeiramente esperam dela?

Se essa pergunta for feita aos noivos, é provável que muitos respondam: “Esperamos a bênção de Deus sobre nosso casamento.” De fato, essa resposta é correta e fundamental. O desafio, contudo, reside no fato de que, embora professado, esse desejo muitas vezes se perde na agitação dos preparativos, em que o foco se desvia do significado para a forma, da essência para a aparência. As expectativas parecem girar mais em torno do “como” e do “quão belo” será o evento do que do seu profundo “porquê”.

Kuyper, fundamentando-se em Gênesis 1.1, nos lembra que Deus “instituiu em toda a sua criação a distinção entre o início de algo e o seu desenvolvimento posterior.” A implicação é profunda: “Deus estabeleceu o começo de todo começo quando, no princípio, criou o céu e a terra.”

A partir dessa perspectiva, Kuyper nos conduz ao que ele considera o início mais crucial entre os seres humanos: o casamento. Considerando que Deus é o Senhor e a fonte de todos os inícios, é impossível conceber um casamento que se inicie e prospere genuinamente à parte Dele.

Podemos visualizar a cerimônia de casamento como o lançamento de uma semente ao solo – um novo princípio. Homem e mulher, por meio de seus votos solenes, diante de Deus e de sua igreja, são unidos em uma só carne. Algo verdadeiramente novo é criado. E, como toda semente, essa união depende intrinsecamente da bênção de Deus para florescer e frutificar ao longo do tempo.

Os noivos, portanto, precisam compreender que a cerimônia, quando se colocam diante de Deus para fazer seus votos, ouvir sua Palavra e receber sua bênção, é o início de um novo princípio divinamente instituído. Assim, os noivos, entendendo que a permanência e a vitalidade dessa união dependem inteiramente de Deus, colocam-se diante Dele de forma consciente, intencional e, acima de tudo, humilde.

Kuyper estabelece uma conexão entre esse início do casamento e um momento significativo que ocorre no início dos cultos em igrejas reformadas continentais: o votum. O ministro pergunta: “Amada congregação do Senhor Jesus Cristo, onde está o nosso socorro?” E a congregação, em uníssono, responde com as palavras do Salmo 124.8: “O nosso socorro está em o nome do SENHOR, criador do céu e da terra.”

O votum não é apenas um elemento litúrgico; é uma confissão profunda de dependência e confiança no Senhor. É um lembrete vívido de que, para que o culto seja aceitável, e para que a vida prossiga, Deus deve ser central. É um reconhecimento de que o verdadeiro culto emana de um coração humilde e dependente. Assim como esse votum marca o início do culto e da semana com nossa confissão de dependência divina, é nesse mesmo espírito que os noivos devem encarar o momento público e solene da cerimônia de casamento.

A primazia de Deus

Ao pensar sobre esse significado da cerimônia de casamento, percebemos que precisamos urgentemente corrigir nossa percepção e ponderar nossas práticas. Precisamos perguntar — e responder com sinceridade: Quem é realmente central na cerimônia de casamento? O que é, de fato, verdadeiramente importante?

Devemos enxergar a cerimônia de casamento como um começo instituído por Deus, realizado perante Ele e que, portanto, deve ser vivido em completa e humilde dependência d’Ele. A mensagem do Salmo 124.8 – “O nosso socorro está em o nome do SENHOR, criador do céu e da terra” – deve ressoar na mente e no coração dos noivos, não apenas nesse dia memorável, mas em todos os dias que se seguirão. O começo depende Dele, e cada dia, cada momento, cada desafio e cada alegria subsequentes também dependem Dele.

Infelizmente, é comum que nos desviemos dessa centralidade divina em favor de tradições superficiais, modismos e preocupações com a aparência, transformando, não raras vezes, a cerimônia em uma “feira de vaidades”. Em alguns casos, a principal preocupação é que o evento seja “instagramável”. Mesmo em contextos mais sérios, existe o perigo de que, apesar da forma litúrgica, do sermão e da seriedade do pastor, a cerimônia se torne, no coração dos noivos e dos convidados, algo distinto do princípio divino que Deus planejou para eles.

Creio firmemente que os ministros têm a responsabilidade de “acender a lâmpada”, levando os noivos a uma reflexão profunda. A pergunta que os ministros devem fazer a si mesmos e aos noivos torna-se, então, fundamental: Qual é o propósito primordial desta cerimônia? O que é verdadeiramente essencial nela? Por que nos reunimos para declarar e celebrar este novo começo?

Deus deve estar no cerne da resposta. E essa centralidade não pode ser uma mera formalidade; deve ser levada a sério em cada detalhe, em cada expectativa e em todo o planejamento. Assim como em todo aspecto da vida e do culto, também na cerimônia de casamento devemos proclamar, com convicção: Soli Deo Gloria.

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