Prefácio
Não é necessário celebrar com grandes louvores ou recomendar ao leitor esta célebre Sinopse de Teologia Mais Pura, publicada pela primeira vez em 1625 e reimpressa quatro vezes em um curto intervalo. No entanto, parece-me oportuno apresentar algumas breves considerações sobre os autores do livro, seu formato, valor, autoridade e, de modo geral, o percurso desta sexta edição, que está prestes a ser publicada. Esta obra, na época de seus autores e por quase cinquenta anos, foi amplamente conhecida entre estudantes de teologia e outros, circulando nas mãos de quase todos; hoje, porém, permanece desconhecida da grande maioria.
A expressão “mais pura” indica a época em que a Sinopse foi escrita. De fato, ela foi publicada pouco depois que a Igreja e a Teologia Reformada saíram vitoriosas de um árduo conflito com os remonstrantes. No Sínodo de Dort, a confissão Reformada foi novamente examinada e aprovada, usando a Sagrada Escritura como pedra de toque. Os dogmas arminianos e outras doutrinas heterodoxas foram refutados, condenados e expulsos da Igreja Reformada.
A dignidade e a autoridade do Sínodo manifestaram-se, naqueles tempos, especialmente na reforma da Academia de Leiden, onde o Remonstrantismo se originara. Com a aprovação do Sínodo, a Academia, cujas cátedras eram ocupadas por professores de diferentes visões e muitas vezes discordantes, foi enriquecida com quatro professores que abraçavam a confissão Reformada de todo o coração e alma. Já em 1611, Polyander1 foi nomeado para o lugar de Gomarus;2 Walaeus3 o sucedeu em 1619. No mesmo ano, Thysius,4 professor de Harderwijk, foi empossado. Por fim, Rivetus,5 chamado da Gália [França], assumiu seu ofício como o quarto professor em 1620.
Esses quatro professores, homens ilustres e doutíssimos, de mérito sem dúvida excepcional para a Igreja Reformada, harmonizavam-se admiravelmente. Eles se moderavam, corrigiam e complementavam em paz mútua, cada um com seus próprios dons e faculdades. Vale a pena relatar o que o filho de Walaeus narra sobre o consenso entre eles e sobre os dons de cada um. Ele diz que:
Cada um, como de costume, destacou-se em certos dons mais do que os outros. Thysius distinguia-se pela memória; Walaeus e Rivetus, pelo engenho — ambos também excelentes no juízo para tirar conclusões; já Polyander, pela destreza na execução. Na ação, Thysius era fervoroso; Walaeus, cheio de vigor; Rivetus, mais brando; e Polyander, sereno. Na formulação de seus pensamentos, Polyander era elegante; contudo, na voz e na eloquência, Rivetus e Walaeus se sobressaíam. Walaeus era mais versado em filosofia; Thysius, nas línguas, especialmente no hebraico, pois Walaeus era mais perito em grego. Em teologia, Thysius e Rivetus possuíam uma erudição mais vasta; Walaeus e Polyander, uma erudição sólida. Thysius era mais perito em História Eclesiástica; Rivetus, na leitura dos Pais da Igreja; Walaeus, na Teologia Escolástica. Walaeus era mais versado nas controvérsias com os socinianos, anabatistas e remonstrantes; Rivetus, com os pontifícios [católicos romanos]. Thysius lecionava de modo difuso; Rivetus, de modo completo; Walaeus, de modo sólido e breve; Polyander, de modo adaptado à prática.6
Esta notável ἀρμονία (harmonia) de opiniões e o consenso sobre todos os pontos da sagrada religião, que sempre existiu entre estes quatro professores, enche-nos de admiração e alegria, especialmente a nós que vivemos em uma época de tanta divergência doutrinária entre os teólogos. De fato, como lemos na biografia de Walaeus, eles decidiram e mantiveram a prática de que ninguém daria um parecer sobre controvérsias religiosas, o governo da Igreja ou casos de consciência individualmente, mas sempre em conjunto com seus colegas.
Portanto, esta Sinopse de Teologia Mais Pura é, em si, o mais amplo monumento desse consenso mútuo. A obra é composta por cinquenta e duas disputas, cada uma escrita por um dos professores. As nove primeiras seguem esta ordem: Polyander, Walaeus e Thysius. As demais (da décima à última) foram escritas alternadamente por Polyander, Rivetus, Walaeus e Thysius. Assim, Polyander escreveu quatorze disputas, Rivetus, onze, Walaeus, quatorze, e Thysius, treze. Em cada disputa, utilizam-se teses — geralmente quarenta ou cinquenta, às vezes mais, às vezes menos. Ocasionalmente, são acrescentados corolários ou antíteses. Esse formato de disputas, herdado da prática acadêmica, confere a toda a obra clareza e encanto, mesmo quando o assunto tratado é, por vezes, muito árido e complexo.
Assim que foi publicada, a Sinopse parece ter sido coroada a rainha da doutrina Reformada. Era, de fato, um manual agradável e prático para os estudantes de teologia: breve, lançando luz clara sobre muitos e variados assuntos, e expondo as controvérsias com os Remonstrantes e os Pontifícios de forma aguda, sutil e perspicaz — contudo, sem raiva nem parcialidade.
Por fim, foi escrita por quatro professores que, desfrutando da confiança e do amor da Igreja, eram reverenciados por quase todos, tanto por sua piedade quanto por sua doutrina. A própria Sinopse é para nós um exemplo claro e um espelho translúcido da doutrina ortodoxa que prevaleceu no Sínodo de Dort. Não surpreenderá a ninguém que leu e estudou esta Sinopse que essa doutrina tenha reinado, e podido reinar, por meio século. A obra não perde para nenhum outro manual da época em acuidade e sutileza de argumentação; frequentemente, brilha com uma διανοίας μεγαλυπρεπείξ (grandeza de pensamento), demonstrando pleno conhecimento da verdade da Sagrada Escritura e da confissão Reformada, ao mesmo tempo que se mantém livre das argumentações áridas, fúteis e insípidas da escolástica.
O Ilustríssimo Sepp investigou com máxima diligência a importância e a grande autoridade que a obra teve em várias Academias.7 Em um curto espaço de tempo, foram cinco edições: a primeira em 1625, a segunda em 1632, a terceira em 1642, a quarta em 1652 e a quinta em 1658. As duas últimas foram publicadas quando todos os autores já haviam falecido, pois Rivetus, o último deles, morreu em 1651. Todas as cinco edições, com exceção de algumas variantes textuais de menor importância, são plenamente consistentes entre si.
Mas os tempos mudam. O longo domínio desta Sinopse, contudo, também chegou ao fim. Outra época exigia outra abordagem. Cocceius8 e outros teólogos introduziram um novo método, e a Sinopse gradualmente caiu no esquecimento.
Agora, mais de duzentos anos após a última edição, esta sexta edição é publicada, e, em minha opinião, em um momento oportuno. Isso porque os mesmos princípios doutrinários que a Igreja Reformada da Secessão em nossa pátria há muito confessa, começam a reviver hoje também fora dela. Portanto, para que esses princípios sejam bem compreendidos e claramente explicados a outros, que esta sexta edição da Sinopse — um guia seguro e digno da mais alta confiança, pois foi composta como que sob os olhos do Sínodo de Dort — seja de grande proveito.
Em Franeker, outubro de 1881.
Herman Bavinck.
Informações sobre a Tradução: A presente publicação consiste em uma tradução livre integral de “Praefatio”. O texto aqui apresentado recebeu o título em português “Prefácio”, extraído do livro “Synopsis Purioris Theologiae” [Sinopse da Teologia Mais Pura]. O livro, teve sua primeira edição em 1625. O prefácio é da sexta edição é do Dr. Herman Bavinck em 188.
POLYANDER, Johannes; RIVETUS, Andreas; WALAEUS, Antonius; THYSIUS, Antonius. Synopsis Purioris Theologiae [Sinopse da Teologia Mais Pura]. 6. ed. Editado e prefaciado por H. Bavinck. Lugduni Batavorum [Leiden]: Didercium Donner, 1881.
O conteúdo e as interpretações expressas neste material são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es) e não refletem, necessariamente, a visão ou o posicionamento editorial da Editora Via Continental.
Nota Editorial (para Publicação Web): Para esta publicação online, alguns títulos de seção (tópicos) e as imagens foram inseridos pelo editor com o objetivo de otimizar a leitura e a experiência visual do usuário. O texto bíblico utilizado é da Bíblia Almeida Revista e Atualizada (ARA).
Notas:
- Johannes Polyander van Kerckhoven (1568-1646). [N. do E.] ↩︎
- Franciscus Gomarus (1563-1641). [N. do E.] ↩︎
- Antonius Walaeus (1573-1639). [N. do E.] ↩︎
- Antonius Thysius (1565-1640). [N. do E.] ↩︎
- Andreas Rivetus (1572-1651). [N. do E.] ↩︎
- A citação é de “A Vida de Walaeus”, incluída por seu filho Johannes Walaeus (1604-1649) nas Obras Latinas de seu pai. Johannes Walaeus “Vita Antonii Walaei”, em Antonius Walaeus, Opera Omnia (Leiden, 1647), 1. ↩︎
- Veja Het Godgeleerd Onderwijs in Nederland gedurende de 16 de en 17 de Eeuw [O Ensino Teológico nos Países Baixos durante os séculos XVI e XVII], por Christiaan Sepp. Segundo Volume, p. 23-94. ↩︎
- Johannes Cocceius (1603–1699). [N. do E.] ↩︎