Categoria | Vida Cristã

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O Sábado ordenado por Deus

Um Gômer para o Sábado

Abraham Kuyper | Doutor
10/10/2025

Guarda, pois, os seus estatutos.

Deuteronômio 4.40.1

À observância do seu Sábado está atrelada a honra da santa soberania de Deus.2 Imagine que você quisesse fazer boas obras em demasia, e dedicasse dois ou três dias por semana ao seu Deus, e para isso escolhesse os dias que lhe conviessem, vivendo na ilusão de que com isso teria oferecido algo a Deus.

Certamente um juízo como o de Saul viria sobre você, e o profeta também lhe bradaria: “Porém Samuel disse: Tem, porventura, o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios quanto em que se obedeça à sua palavra? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender, melhor do que a gordura de carneiros.” (1 Samuel 15.22).

Um único dia de Sábado, santificado em obediência à instituição do Senhor, é melhor do que dez dias dedicados a Ele por vontade própria.

E, portanto, note que o seu Sábado é ordenado por Deus; que o Dia de Descanso foi instituído pelo próprio Deus; que é um mandamento imposto a você, e não uma oferta com a qual você se apresenta diante do seu Deus.

O Sábado é uma instituição do Senhor.

Você sabe como Moisés, em nome do Senhor, nada repetia mais incessantemente aos ouvidos de Israel do que o fato de que todas essas coisas sagradas são os estatutos, as ordenanças e os mandamentos do Senhor.

E assim devia ser. Porque em Israel habitava precisamente o mesmo pecado que constantemente se insinua em seu coração: o desejo de dar glória a Deus, contanto que isso pudesse ocorrer conforme a própria compreensão, por iniciativa própria, segundo o impulso do próprio coração.

E o que Israel não queria, e o que você, por natureza, também não quer, é servir por obediência; porque Ele o ordenou a você; e porque Ele o instituiu.

Você então quer fazer muito pelo seu Deus. Oh, você entregaria tudo por Ele. Somente que o Senhor não deve exigi-lo de você no caminho da obediência. Antes, Ele deve deixá-lo à sua própria iniciativa. E então você dedicaria a Deus tudo o que fosse capaz de fazer. Com o desejo de dar glória a Deus, você competiria com os melhores. Somente essa honra, a de que Ele, como seu Soberano e Rei, determine o que você fará por Ele, essa honra você não Lhe concede.

E é isso justamente o que o seu Sábado lhe vem pregar repetidamente: “Deus me instituiu. Por Deus fui ordenado. E você, ó filho do homem! deve se submeter à ordenança de Deus.”

Não que essa mesma pregação não estivesse presente em toda a natureza e em toda a Aliança da Graça; mas sua fala em nenhum lugar se manifesta tão claramente quanto em seu Sábado.

Indubitavelmente, Deus também criou os ciclos anuais e eles governam sua vida; e você deve semear, não quando tem vontade, mas quando é tempo de semear; e você deve colher, não quando lhe convém, mas quando Deus amadureceu o grão. E assim você está sob as ordenanças de Deus em toda a sua vida natural. Pois você pode, sim, transformar o dia em noite e a noite em dia. Mas logo isso se vingará, e na falta de frescor do seu sangue a instituição violada do seu Deus irromperá em ira.

Contudo, esta pregação passa muito despercebida, e este tipo de instituição é demasiado difícil de escapar.

Todavia, com o seu Sábado não é assim.

De fato, você pode considerar o seu Sábado como não existente para você sem perturbações significativas. Isso você vê nos milhares e milhares que jamais guardam o Sábado. E assim, aqui se trata de uma instituição para a qual a natureza não impulsiona por si mesma, mas que só pode ser exigida pela obediência deliberada.

Para poder guardar o Sábado, você deve querer guardá-lo.

Você deve, para honrar o Sábado, conscientemente se conformar à ordenança do seu Deus.

E você não o guarda, a menos que, na própria observância do Sábado, preste homenagem à soberania de Deus.

Todo aquele que não conta com o Sábado, com isso diz que não se importa com o que seu Deus e Senhor instituiu.

Mas, inversamente, todo aquele que guarda o Sábado conforme o mandamento, honra aqui o Autor do mandamento e se curva diante de Deus como seu Rei.

Penetre, pois, profundamente em sua consciência para saber se também você está em retidão diante do seu Deus nisso, e se você realmente guarda o Sábado por obediência, porque seu Deus assim o instituiu.

Se você, portanto, não descansa porque está cansado do trabalho e o lazer lhe é bem-vindo; nem porque isso promove o florescimento da sua vida social; nem porque você deve ter um dia para sua família; nem apenas porque deve haver um dia para ir à igreja. Não, mas se você celebra seu Sábado porque Deus assim o instituiu.

Pois se sua alma está de fato assim submetida a ele, então a sua celebração do Sábado é em si mesma já um desvelar da sua alma, para beber da salvação do seu Deus, e você alcança essa posição justa na qual o Senhor quer abençoar você com graça sobre graça.

Você mesmo sabe que nada fecha tanto o seu coração à graça quanto esse desejo maligno de agir por vontade própria e por próprio prazer, de colocar seu conselho no lugar da providência de Deus, e até mesmo em sua piedade andar por seus próprios caminhos.

Assim, e não de outra forma, o homem se tornou um pagão. E então ele pode, como em Atenas, ser tão devoto a ponto de construir um altar para o deus desconhecido; mas é justamente essa presunção e voluntariedade que aniquilam toda verdadeira piedade em seu íntimo, e o resultado é que Deus o entrega para que ande em seus próprios caminhos e, por fim, chegue a Baal Peor e à nudez, para não mencionar pecados ainda mais hediondos, como os que Romanos 1 enumera.

Se, portanto, o Sábado vem para quebrar e podar essa sua vontade própria e presunção, tão profundamente pecaminosas, então já com isso uma bênção está reservada para sua alma.

Então, sim, você foi levado a não instituir por si mesmo, mas a deixar seu Deus instituir, e com isso reconhecer que o direito de instituir pertence a Ele e não a você.

E agora esse Sábado retorna a cada sétimo dia, como para trazer a cada sétimo dia essa mesma investigação à sua consciência: se você busca a falsa piedade de Saul, ou a verdadeira piedade que emana da homenagem à soberania de Deus.

Deus quer ver em Seu Sábado servos e servas diante d’Ele, que saibam que Ele é o Senhor e, portanto, tem o direito soberano de ordenar tal dia em sua Santa Casa.

Não pessoas que se julgam iguais a Deus e agora, com boa intenção de seus corações, pensam estar prestando um serviço a Ele, mas sim súditos do Rei dos reis, que agem conforme seu mandamento e seu direito.

E Ele, de fato, se revela em Seu Sábado mais ricamente do que nunca como nosso Pai nos céus, que acolhe esses servos e servas como seus filhos; mas de modo algum para que, por isso, o direito de dispor em sua Casa paterna seja retirado de suas mãos por seus filhos.

Justamente porque Ele é nosso Pai, Ele, portanto, permanece o único que tem o direito de instituir como Ele quer que seus filhos o tenham.

Também entre seus filhos o serviço deve permanecer um serviço a Deus; e há dois tipos de serviço. Um serviço por recompensa, e assim serve o servo. Mas também um serviço por amor, e assim serve o filho.

O filho sabe: “Se eu mesmo for instituí-lo, não terei mais Pai”; e é justamente porque em possuir seu Pai reside toda a sua glória, que o filho pergunta e investiga as instituições de seu Pai e as segue por impulso de amor.

Mesmo na criança, todo pensamento de querer agir de outra forma desaparece. Pois o filho de Deus sabe que as coisas sempre vão mal se forem diferentes do que Seu Pai instituiu. E, portanto, tem prazer nas instituições de Deus e se sente atraído ao Seu amor por meio dessas instituições de Deus.

Todo o Salmo 119 também se aplica ao filho de Deus em seu Sábado.


Informações sobre a Tradução: A presente publicação consiste em uma tradução livre integral.

KUYPER, Abraham. Gomer voor den sabbath: meditaties over en voor den sabbath [Um Gômer para o Sábado: Meditações sobre e para o Sábado]. Amsterdã: Hoveker & Wormser, [1889].

O conteúdo e as interpretações expressas neste material são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es) e não refletem, necessariamente, a visão ou o posicionamento editorial da Editora Via Continental.

Nota Editorial (para Publicação Web): Para esta publicação online, alguns títulos de seção (tópicos) e as imagens foram inseridos pelo editor com o objetivo de otimizar a leitura e a experiência visual do usuário. O texto bíblico utilizado é da Bíblia Almeida Revista e Atualizada (ARA).


Notas:


  1. Esta meditação integra a obra “Gomer voor den sabbath” (Um Gômer para o Sábado), de Abraham Kuyper, publicada em 1889. A coletânea de meditações é dedicada ao sábado. Seu título é uma referência à medida de maná mencionada em Êxodo 16.16-24, simbolizando o sustento diário e semanal que Deus provê. O livro é estruturado em duas partes principais: sete meditações sobre o conceito do sábado e cinquenta e duas meditações, uma para cada domingo do ano, que foram originalmente publicadas no jornal “De Heraut”. [N. do E.] ↩︎
  2. É importante destacar que o autor utiliza a palavra “Sábado”, para se referir, de forma geral, ao dia de descanso. Enquanto na Antiga Aliança este era o sétimo dia, na Nova Aliança ele passou a ser o primeiro dia da semana, conhecido como o Dia do Senhor. [N. do E.] ↩︎

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