Ah! Enganoso é o nosso coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá? Onde se pode encontrar essa igreja de Deus aqui na terra? Assim perguntam muitos, não porque desejam uma resposta sua, mas porque já têm a resposta pronta. A igreja de Deus é invisível, dizem eles; somente Deus pode vê-la, não nós, pelo menos não agora e não aqui.
O que vemos, a assim chamada igreja visível, é algo totalmente diferente daquilo que a Escritura chama de Casa de Deus, Corpo de Cristo, Templo do Espírito. A igreja visível não é uma comunhão dos santos, mas meramente uma associação de pessoas que têm em comum a mesma confissão, reconhecem os mesmos oficiais e participam juntas dos meios da graça. Ela é uma escola preparatória do Cristianismo, boa para os menos avançados, mas, exceto onde se trata do Batismo e da Ceia do Senhor, supérflua para os mais profundamente iniciados. “O que se vê nela não é igreja, e o que nela é igreja não se vê”, disse certa vez um deles.1
Ora, se as coisas são assim, então um fardo inteiro de deveres cai dos nossos ombros. Tudo o que a Escritura nos ensina sobre os deveres da comunhão fraterna limita-se, então, aos membros da igreja invisível. Precisamos apenas de olhos para discerni-los; mas isto não representa dificuldade; sente-se no próprio coração se encontramos um irmão em alguém. Somente com esses entramos em comunhão fraterna, mas os outros membros da igreja são para nós pouco mais que um gentio ou publicano.
Contudo, a questão é se a pressuposição sobre a qual repousa essa subestimação da igreja visível pode ser considerada fundamentada. A igreja visível é realmente distinta da invisível como algo separado? Ela está ao lado dela, de modo que na verdade existem duas igrejas? Essa pergunta deve ser respondida negativamente.
Há somente uma igreja, assim confessamos no Credo Apostólico. Essa única igreja é ao mesmo tempo visível ou perceptível, e invisível ou imperceptível. Vós não podeis vê-la em sua plena extensão. Muitos de seus membros já entraram no céu, e muitos eleitos ainda estão nos lombos de seus pais.
Vós não podeis vê-la como uma comunhão de meros eleitos. Muitos em seu meio estão ligados a ela apenas exteriormente e temporariamente; ramos secos em uma árvore viva, que só são discerníveis com absoluta certeza por Deus. Assim como ela repousa no Conselho de Deus, e é vista por Deus, como uma comunhão que abrange todos os eleitos, e somente a eles, a igreja só poderá ser vista no dia de Cristo.
Sob esta restrição, contudo, pode-se dizer que a igreja de Deus é de fato visível aqui. Ela é um fenômeno histórico. É verdade que é necessário um olho espiritual para ver nela o reino dos céus representado; pois somente pela fé a igreja é discernida em sua natureza celestial. Mas, ainda assim, todos podem notar que existe uma igreja na terra.
Aliás, é evidente a partir da própria Escritura que todas as imagens que ela usa para nos descrever a igreja de Deus realmente se aplicam a esta igreja visível. Casa de Deus, assim o Apóstolo chama as igrejas nas quais Timóteo trabalhava, quando disse que lhe dava instrução para que ele soubesse como deveria conduzir-se na casa de Deus. Corpo de Cristo, assim Paulo chama a igreja de Corinto, quando se dirige a ela em 1 Coríntios 12.27, dizendo: “Ora, vós sois corpo de Cristo; e, individualmente, membros desse corpo”. Templo de Deus, nenhum título menor que este dá o mesmo Apóstolo à mesma igreja de Corinto, quando lhe diz: “porque o santuário de Deus, que sois vós, é sagrado”, 1 Coríntios 3.17.
Dos muitos textos que podem servir de prova de que a igreja, tal como a vemos, é a igreja com a qual temos de contar, como revelação do reino dos céus na terra, apenas alguns foram escolhidos aqui. Eles são suficientes para refutar o erro de que o crente poderia se retirar de seus membros, para se isolar “num cantinho com um livrinho”, com alguns peregrinos a Sião escolhidos e rotulados por ele mesmo.
Nem todos os filhos de Israel eram filhos da promessa; houve até tempos na história do povo em que a grande maioria dos filhos de Jacó revelou-se rejeitada por Deus. No entanto, não era lícito ao verdadeiro israelita, por causa disso, retirar-se dos filhos do seu povo. Foi o que fizeram mais tarde os Essênios; mas Jesus nunca o fez, nem ordenou aos seus discípulos que o fizessem. Os santos da Antiga Aliança mantiveram firme o laço fraterno com todos os filhos de seu povo, até que o próprio Deus, por meio do juízo, fizesse separação entre os “Jacós” e os “Esaús”; eles se sentiam responsáveis por todo o seu povo.
Informações sobre a Tradução: A presente publicação consiste em uma tradução livre integral.
ANDEL, J. van. De gemeenschap der heiligen [A comunhão dos santos]. Kampen: J. H. Bos, 1904.
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Notas:
- Embora o autor J. van Andel não especifique a fonte, esta frase é amplamente considerada uma síntese da tese do jurista e teólogo luterano alemão Rudolf Sohm (1841-1917). Em sua influente obra Kirchenrecht (1892), Sohm argumentou que a verdadeira essência (Wesen) da Igreja é espiritual e carismática, estando em tensão direta com qualquer forma de lei ou organização humana (visível). [N. do E.] ↩︎