I. A TERRA DEVASTADA
“Toda a terra está devastada, porque ninguém há que tome isso a peito” (Jeremias 12.11).
1. Degeneração da vida religiosa.
Há um século,1 no campo religioso, os Países Baixos apresentavam a imagem oposta de um jardim florescente, não por falta de desenvolvimento, mas pela força da devastação.
Não há nada que atue de forma mais dissolvente e corruptora em toda a vida nacional do que a incredulidade.
Os Países Baixos floresceram pela fé, isto é, pela confiança em Deus e obediência a Deus.
De fato, há alguma semelhança entre a história de Israel e a nossa. Desde o início, a linha da eleição resplandece como ouro fino. Um povo insignificante foi elevado ao mais alto grau de grandeza nacional, um exemplo e uma bênção para os povos ao redor.
Já na chamada obscura Idade Média, a luz brilhava aqui. Onde se cantou, se testemunhou de Jesus com mais íntima piedade do que na terra de Ruisbroec, Geert Groote, Thomas de Kempis?2
Que povo, quando rompeu a aurora da Reforma, professou com mais determinação o puro Evangelho Reformado? Quem trouxe maiores sacrifícios? Quem — e isto é característico do espírito nacional neerlandês — quem se curvou com mais inteireza à autoridade da Palavra de Deus? O segredo do espírito de liberdade neerlandês, que se manifestou em todos os campos, inclusive no terreno da Igreja, residia não menos na aceitação da autoridade absoluta da Sagrada Escritura. Obediência a Deus significa liberdade perante o homem!
Assim, os Países Baixos floresceram… pela fé.
Especialmente a Igreja era forte e frutífera.
Não por erudição e pompa de formas, mas pela aceitação da simplicidade apostólica na doutrina e na conduta.
Como Estado, os Países Baixos eram republicanos; como Igreja, presbiterial, isto é, governada pelo ofício, que se vincula à Escritura.
Quão grande era a sua força, precisamente por essa piedosa submissão, a Igreja provou em sua luta contra os Arminianos. Desta luta, ela emergiu vitoriosa, carregando o tesouro da Verdade, brilhando em pura beleza. A Igreja tornou-se consciente, mais claramente do que nunca, da soberania de Deus, da suficiência de Cristo, da irresistibilidade da obra do Espírito Santo e, portanto, da certeza da salvação.
A Igreja manteve esta confissão não apenas nos púlpitos, mas também na instrução da juventude na tríplice catequese (por pastor, professor e pais). Até mesmo os professores nas universidades eram obrigados por um voto à fidelidade ao princípio Reformado. Na vida política, a palavra da Igreja tinha autoridade. Ela mesma era protegida pelo magistrado. Havia liberdade religiosa nos Países Baixos, mas ofensas contra a única Religião Reformada reconhecida não eram toleradas pelo Governo. Havia até mesmo censura sobre os livros, a fim de proteger nosso povo de doutrinas perniciosas.
Assim, os pais mostraram que levavam a sério a luta pela fé “que uma vez foi entregue aos santos”.
E à fé eles acrescentaram a virtude do amor. As casas de misericórdia não eram menos numerosas que os templos da verdade.
Na vida, os Reformados queriam ser tão rigorosos quanto na doutrina, de acordo com a bela declaração nos Artigos contra os Remonstrantes: “Esta certeza de perseverança, longe de tornar os crentes verdadeiros em orgulhosos e acomodados, é antes a verdadeira raiz da humildade, da reverência filial, da piedade genuína, da resistência em todo combate, das orações fervorosas…” (Os Cânones de Dort, Capítulo V, Artigo 12).3
“A confiança renovada não leva aqueles que foram restaurados, depois de haverem caído, à falta de zelo nem à negligência da piedade; antes produz neles um cuidado ainda maior em observar os caminhos do Senhor…” (Os Cânones de Dort, Capítulo V, Artigo 13).4
Os Países Baixos eram um jardim de delícias, uma Canaã; o povo era, não sem razão, chamado de um Israel Germânico.
Mas também em outro aspecto a antiga história se repetiu.
Os Países Baixos, assim como Israel, quebraram a Aliança e abandonaram seu Deus, o Manancial da vida.
Quando a apostasia começou, é difícil dizer com precisão.
“A corrupção, consistindo no desvio da doutrina, na rejeição total ou parcial das formas de unidade,5 na falta de disciplina e supervisão sobre o que era ensinado, não era peculiarmente própria do tempo imediatamente anterior à Separação (Afscheiding)” (Sr. Sybenga, De Afscheiding).6
A degeneração se instala, tanto em um povo quanto no indivíduo, assim que a fé cessa de oferecer “forte resistência” contra “a maldade que sempre nos assedia.”
Já vemos os primeiros sinais deste declínio se manifestarem logo após o sublime ato de fé em Dordrecht.
Travaram-se guerras, não pela liberdade de consciência, mas pela riqueza do tesouro.
A prosperidade através da milícia e do comércio induziu à busca pela opulência.
A grandeza do estado tornou-se, para muitos, grandeza de vida.
A ortodoxia limitou-se a uma intelectualidade infrutífera.
A erudição sufocou a piedade.
Até nos púlpitos, o conhecimento, “que ensoberbece”, tinha, por vezes, mais a dizer do que “o amor, que edifica”.
Embora oficialmente ainda fiel à verdade, a fé apostólica, que nos dias da Reforma “alcançou promessas e praticou a justiça”, definhava.
A fé histórica não é capaz de resistir à incredulidade. O que está em si corrompido não detém a corrupção.
Assim, nos Países Baixos Reformados, os princípios do Deísmo Inglês (soberania da razão, o Cristianismo uma religião relativa, a Bíblia um registro da religião natural), dos Enciclopedistas Franceses (Rousseau, Voltaire, Diderot), da filosofia Alemã, tiveram livre curso. Os artigos da nova fé (pois também o incrédulo tem sua fé) diziam: O mundo existe por si mesmo; o homem é bom por natureza; a verdade é resultado da investigação; a cultura traz redenção e salvação. Embora os termos antigos fossem em grande parte mantidos, este “novo Evangelho” suplantou em toda parte a antiga Religião.
A devastação havia começado.

E a Revolução política completou a obra da destruição.
A “descendência dos puros batavos” tomou seu próprio destino em mãos, construiu seu novo mundo na “aurora da libertação popular”. Os pioneiros “iluminados” não aboliram o Cristianismo. Não sopraram, como fazem agora os Comunistas na Rússia (netos dos pais liberais), ameaça e morte contra os discípulos de Jesus. Nenhum edifício de igreja foi fechado ou demolido. Os “lugares de piedosa veneração a Deus” puderam servir para orar pelos “heróis do pensamento libertador”.
Mas a própria Igreja, e com ela a religião Cristã, foi muito claramente posta de lado.
O novo governo proibiu o toque público dos sinos no domingo. A abolição desta cerimônia era um sinal. A Igreja não era mais, como nos dias da República, um poder público, mas uma “sociedade particular para a prática da religião”, e a própria religião um “assunto privado”, no qual o homem deve ser deixado livre, uma questão com a qual o “adepto” não deve perturbar o concidadão.
Nos Países Baixos “renascidos”, o verdadeiro cidadão era ao mesmo tempo o verdadeiro Cristão, a virtude cívica equivalente à piedade.
O tipo de neerlandês que substitui os homens e mulheres da idade de ouro é Sara Burgerhart,7 de coração aberto, ampla visão, zombando dos severos irmãos de Dordrecht,8 que a seus olhos não são melhores que hipócritas.
Também Kees, o homenzinho do asilo diaconal, desenhado na Camera, pertence à multidão que toma o lugar dos pais.9 Ele é sentimental, muito preocupado com o que acontecerá após a morte com seu… corpo. Ele economizou para um funeral decente!
E a própria Igreja?
Ela se opôs à invasão da incredulidade? Ela, como a igreja mãe dos mártires, protegeu seus filhos contra o ladrão que espreita a alma da pombinha?
Não, ela não estava angustiada, nem sequer inquieta.
Ela agiu como o servo que se coloca no lugar do senhor da casa. Ela era como a virgem que não tem azeite para a lâmpada, mas mesmo assim se deita para dormir, porque o noivo demora.
Por que ela estaria preocupada?
A forma da igreja permaneceu a mesma, presbiterial segundo a Ordem Eclesiástica de Dordrecht!
As Formas de Unidade não foram mudadas, muito menos abolidas.
O Catecismo ainda era o livro didático para os pequenos batavos batizados.
Sim, mas… dentro de seus muros, a incredulidade tinha tanto “direito”, e mais poder, do que a fé antiga.
Quem permite, é cúmplice.
Com a permissão, tanto de oficiais como de membros, a incredulidade foi propagada na Igreja da pátria em formas piedosas e humanistas.
“Com o conceito de revelação especial foi (pelo Racionalismo) naturalmente também removido o do milagre; o pecado passou a se chamar imperfeição; a redenção, iluminação; a fé, convicção intelectual; a conversão, melhoria; o Cristo, um professor de moral; a Igreja, casa de correção e escola de desenvolvimento; o batismo, formalidade; a Ceia do Senhor, uma festa de irmãos” (Oosterzee).10
O lamento do profeta Jeremias sobre Israel, era também de aplicação ao nosso povo: Toda a terra está devastada.
Por qual causa?
Porque não há ninguém que a tome a peito.
O desvio no campo da religião não é tanto fraqueza do intelecto, mas uma doença do coração.
Deus havia estabelecido com nosso povo, assim como com o povo escolhido no Oriente, a Aliança da graça. Ele havia dito: Eu serei o vosso Deus e o Deus dos vossos filhos. A história dos Países Baixos tem sido uma ilustração e confirmação contínua e brilhante da veracidade desta promessa.
O Pai celestial nos cumulou de benefícios, quase nos mimou, com os presentes do Seu amor.
Mas os Países Baixos, pela permissão e reconhecimento da incredulidade, quebraram a Aliança de Deus.
A incredulidade é pecado, mesmo para o pagão, mas é um mal particular para um povo educado e crescido na Verdade.
Aqui, a incredulidade é infidelidade, falta de amor, recusa em tomar a peito o que é falado pelo coração de Deus.
Informações sobre a Tradução: A presente publicação consiste em uma tradução livre integral.
WIELENGA, B. De Reformatie van ’34 [A Reforma de 1834]. Kampen: J. H. Kok N.V., 1933.
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Notas:
- A obra, escrita por Wielenga em 1933, trata da Secessão (Afscheiding) ocorrida em 1834. [N. do E.] ↩︎
- Jan van Ruisbroec (1293-1381), místico flamengo; Geert Groote (1340-1384), pregador e teólogo holandês, considerado o fundador do movimento Devotio Moderna (Devoção Moderna); e Thomas à Kempis (c. 1380-1471), monge agostiniano alemão-holandês e membro da Devotio Moderna, mundialmente conhecido como o autor da obra A Imitação de Cristo. O autor os agrupa como os principais representantes de um período de profunda piedade e fervor espiritual centrado em Cristo nos Países Baixos durante a Baixa Idade Média. [N. do E.] ↩︎
- As Três Formas de Unidade das Igrejas Reformadas: A Confissão Belga, O Catecismo de Heidelberg e Os Cânones de Dort. 2. ed. Recife: Editora CLIRE, 2009. [N. do E.] ↩︎
- Ibid. [N. do E.] ↩︎
- As Três Formas de Unidade: São os três documentos confessionais centrais que estabelecem a base doutrinária das igrejas na tradição Reformada Continental. Juntas, elas definem a identidade teológica e a unidade dessas igrejas. São elas: a Confissão Belga (1561), o Catecismo de Heidelberg (1563) e os Cânones de Dort (1618-1619). [N. do E.] ↩︎
- Uma citação da obra de Mr. S. Sybenga, um jurista e historiador, intitulada “De Afscheiding en het Algemeen reglement voor het bestuur der Nederlandsche Hervormde kerk van 1816” (A Separação e o Regulamento Geral para a administração da Igreja Reformada Holandesa de 1816), publicada por volta de 1932-1933. [N. do E.] ↩︎
- Sara Burgerhart é a personagem-título do romance epistolar holandês De Historie van mejuffrouw Sara Burgerhart (A História da Srta. Sara Burgerhart), publicado em 1782 pelas autoras Betje Wolff e Aagje Deken. A obra é um clássico do Iluminismo nos Países Baixos. O autor [Wielenga] usa-a aqui como um arquétipo literário da “nova” mentalidade holandesa do final do século XVIII, que, influenciada pelo Iluminismo, valorizava a razão, a virtude cívica e a autonomia pessoal (“coração aberto, ampla visão”), em contraste direto com a piedade e a ortodoxia calvinista do Sínodo de Dort (os “severos irmãos de Dordrecht”), que essa nova era considerava antiquada ou hipócrita. [N. do E.] ↩︎
- Irmãos de Dordrecht: Refere-se aos teólogos, pastores e presbíteros que participaram do Sínodo de Dordrecht (ou Dort), um grande concílio da Igreja Reformada realizado na cidade holandesa de Dordrecht entre 1618 e 1619. Este sínodo é o marco da ortodoxia calvinista, famoso por articular os Cânones de Dort (a “TULIP”) em resposta à teologia arminiana. [N. do E.] ↩︎
- A referência é à “Camera Obscura” (1839), uma célebre coleção de esboços literários sobre a vida holandesa, escrita por Hildebrand (pseudônimo de Nicolaas Beets). “Kees, o homenzinho do asilo diaconal” (het diakenhuismannetje), é um dos seus famosos retratos. O autor [Wielenga] utiliza-o, em paralelo a Sara Burgerhart (a representante do Racionalismo), como o arquétipo de um Pietismo puramente sentimental e egocêntrico. A sua preocupação religiosa, como nota o texto, foca-se no seu funeral (“um funeral decente”) em vez de na fé robusta dos “pais”, simbolizando assim a outra face do declínio espiritual. [N. do E.] ↩︎
- (Oosterzee): Refere-se a Johannes Jacobus van Oosterzee (1817-1882), um dos mais proeminentes teólogos, pregadores e professores holandeses do século XIX. Ele lecionou na Universidade de Utrecht e foi um líder da chamada “direção ética” (ou evangélica). Este grupo buscava um caminho intermediário entre a ortodoxia calvinista estrita e o liberalismo (Racionalismo) da época. O autor [Wielenga] o cita aqui como uma testemunha que, embora teologicamente moderada, diagnosticou com precisão como o Racionalismo esvaziou os termos centrais da fé cristã, tratando o pecado como “imperfeição” e Cristo como mero “professor de moral”. ↩︎