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Andar como os cegos

Meditação em Sofonias 1.17

Klass Schilder | Doutor
25/09/2025

E angustiarei os homens, e andarão como cegos.

Sofonias 1.17

O célebre escritor Maeterlinck,1 em uma notável alegoria, retratou certa vez a miséria dos cegos espirituais. Em sua parábola, “Os Cegos“, ele nos faz contemplar a marcha lúgubre de um grupo sombrio de pessoas; trata-se de uma comitiva de cegos. Vemo-los andando, arrastando-se com pés hesitantes, paralisados na monotonia de uma vida incolor. Sua marcha é laboriosa, mas, ainda assim, eles prosseguem. Pois têm um guia, um velho sacerdote, que com o toque de sua mão, a firmeza de seu passo e a alegria de sua voz, caminha à frente deles, conduzindo-os em seus caminhos.

Até que, certo dia, a triste comitiva conclui sua jornada sob a liderança do sacerdote e, em seguida, descansa. Estão mergulhados em uma profunda melancolia; ninguém fala. O guia também se cala; o velho sacerdote parece não ter mais palavras de alegria. Assim parece; mas, o que é pior… é realmente assim. Silenciosamente, sem que ninguém notasse, o velho sacerdote adormeceu na morte, e seu corpo morto jaz estendido no chão. E o pior de tudo: seus seguidores cegos não sabem disso. Seus olhos, como sempre, estavam fechados quando o ancião fechou os seus no crepúsculo da morte. E os cegos ainda permanecem em silêncio.

Mas ouçam — ao longe, um ruído se aproxima. A princípio incerto, vago, ressoando de uma vasta distância; mas lentamente se avizinha. São ondas impetuosas que chegam rugindo. A água sobe; o mar se eleva. E os pobres cegos… eles sabem que o perigo está próximo, mas o seu guia não está ali para conduzi-los, para afastá-los da água que avança?

Ouçam, eles o chamam…, mas ele não responde. Insistem com voz suplicante, gritando para sobrepujar o fragor das ondas. Mas o homem morto, que julgam estar vivo, não responde. E quando as ondas se aproximam, eles se levantam, em um movimento incerto. Tateiam e buscam o calor da mão do sacerdote, mas em seu desespero cambaleiam uns contra os outros; são dispersos como ovelhas sem pastor. Eles “andam como os cegos“, sem rumo e instáveis; e quando as ondas chegam, seus pés vacilantes são levantados do chão, e eles afundam no abraço gélido do mar que avança.

Sabeis agora o que significa “andar como os cegos“? Nenhuma parábola poderia vos descrever todo o terror da marcha dos cegos melhor do que a parábola de Maeterlinck.

Vede: aqueles cegos são os pobres homens. Aquele mar é a infinidade. O sacerdote-guia é a fé. E agora compreendeis o propósito da parábola: o homem que perdeu sua fé perece no abraço da infinidade; ele anda como os cegos; ele perde a trilha da razão luminosa e torna-se privado de razão; e quanto mais a impressão do perigo o atormenta, mais ansiosamente ele tateia por uma saída que não encontra. Por sua falta de razão, torna-se desesperado; e, finalmente, em sua perdição, vemo-lo perecer.

O verdadeiro sentido da cegueira e do medo

Sem dúvida, essa parábola de Maeterlinck é profundamente sentida e, em muitos aspectos, verdadeira. Mas não penseis que ela desenha corretamente a visão de mundo. Não imagineis que a humanidade cansada de nosso século, que perdeu a fé, seja como vos foi retratada. Não — embora o mundo tenha perdido sua fé, ele não tem medo, como os pobres cegos da parábola diante do avanço das ondas. Pois o mundo da civilização e da cultura vê a questão de forma exatamente oposta à daquele escritor, à vossa e à minha.

Esta parábola dizia: o homem sem fé é cego, e a fé é que vê. Mas sabeis o que o mundo pensa e diz? O seguinte: o homem sem fé é o iluminado, o “o que vê”; e a fé, essa sim, é cega. O homem moderno ri um pouco dessa parábola: a quem ela chama de cego, ele chama de aquele que vê; a quem ela aponta como o que vê, ele insulta como cego.

E é precisamente por isso que a parábola daquele escritor não pode nos satisfazer. Pois os homens deste século não têm medo, como aqueles cegos que tateiam; não, eles estão seguros de si, tranquilos e confiantes em sua própria ilusão. Cegos, de fato são; mas não “andam como os cegos”. Eles seguem em frente, sem hesitação, em direção ao alvo de seu coração depravado.

Andar como os cegos“: é o que Maeterlinck descreve e o que Sofonias descreve. Aparentemente, o tema de Maeterlinck é o mesmo do nosso texto. Mas, na essência, não é. Em Maeterlinck, a sequência é esta: eles andam como os cegos e, por isso, ficam com medo. Em Sofonias, é exatamente o contrário: eles ficam com medo e, por isso, andam como os cegos! Percebeis o contraste?

Naquele escritor de fora da Escritura: primeiro a cegueira; depois o medo. Mas o escritor na Escritura descreve primeiro o medo, depois a perdição da cegueira.

Nisso vemos a confirmação do que escrevemos acima. Embora o homem seja, por natureza, completamente cego, ele não acredita nisso. “Somos nós também cegos?“, perguntam os fariseus a Jesus. E o tom de sua pergunta revela que não creem nisso. O homem exulta: eu vejo. E justamente porque sua “” se foi, ele pensa que voltou a enxergar livremente. Por isso, não tem medo, nem mesmo quando o perigo surge e as águas da infinidade avançam sobre ele.

Isso Sofonias sabe melhor que Maeterlinck. Pois Sofonias fala: assim diz o Senhor: Eu angustiarei os homens! Eles ainda não estão angustiados, mas Eu os farei ficar. Sim, essa é a triste necessidade: Deus precisa primeiro angustiá-los. Pois eles estão tão tranquilos, tão calmos, tão seguros em sua cegueira — e isso Maeterlinck não compreendeu.

Eu os angustiarei“, isto é, Eu os levarei ao desespero, para que não saibam mais o que fazer. E só então eles andarão como os cegos. Assim como os cegos andam sem direção, sem plano, sem firmeza, sem um princípio orientador, sem razão, assim Deus angustiará seus inimigos, para que andem como cegos. Para que também, em sua falta de razão, caminhem para a própria morte. Para que pereçam, cambaleando e esbarrando uns nos outros, buscando um caminho que não podem encontrar. O entendimento lhes faltará; uma saída não encontrarão. No oceano da infinidade, Eu os farei ser engolidos como cegos, diz o SENHOR dos Exércitos!

Escutais agora esta palavra? Se continuardes a vos gloriar em vossa luz natural, crendo que vedes, Deus vos angustiará! Mas então será tarde demais. Pois não vos esqueçais: esta palavra é uma profecia de juízo. Este “angustiar” conduz à morte.

Há também um “angustiar” para a vida! Deus também pode angustiar os homens para que andem como os que veem. Vede o caso de Paulo. Ele esteve lá, temeroso e angustiado em Damasco, mas saiu de lá como os que veem, não como os cegos. E por quê? Porque aprendeu a ver que era cego. Porque compreendeu que, justamente quando não tinha medo, deveria ter tido; e que, quando ficou com medo, não precisava mais ter. Paulo percebeu que, antes de ser angustiado, era cego e, no entanto, não andava como os cegos. E por isso Deus não o deixou naquela angústia; Ele fez Paulo ver.

Mas quem, como Paulo, não aprendeu a ver que por natureza é cego, não se angustia por si mesmo. E se permanece nessa presunção, Deus um dia o angustiará, para que ele ande como os cegos, em desespero irracional.

E assim, ninguém escapa desse angustiar de Deus. Os “Paulos” conhecem sua cegueira nesta vida e se angustiam… mas para a vida. Os outros, que aqui não se angustiam por sua cegueira, serão mais tarde angustiados.

Sim, mais tarde. Lede apenas a profecia do primeiro capítulo de Sofonias, e sentireis imediatamente que sua visão profética, a partir da angústia que ocorre neste tempo, o faz dirigir o olhar para aquela outra, a grande angústia que virá no último dia! No dia do Senhor, Deus angustiará, com grande pavor, aqueles que aqui não quiseram crer em sua cegueira.

Então eles andarão como os cegos, em grande confusão. Então será naquele dia,

quando os zombadores, cansados de zombar,

se apresentarem diante do tribunal de Deus,

e pedirem: Montes, caí e cobri

nossas pobres almas, manchadas de imundície

com vergonha e desonra, e carregadas

com o que tolamente fizemos!2

E desse juízo vemos, às vezes, mas excepcionalmente, já na terra uma prefiguração. Já agora há pessoas que ficaram angustiadas e que, em seu desespero, andam como os cegos, em irracionalidade. Assim é Judas, que se lança à forca. Seu cambalear para a morte é um prelúdio da grande confusão no dia dos dias. Assim é o mundo supersticioso de nossos dias, que, sob a impressão da realidade de um poder espiritual invisível, se angustia e agora anda como cegos, igualmente confuso, igualmente sem rumo e igualmente instável, até recorrer a adivinhos, médiuns e a todos os poderes de uma ciência oculta!

Portanto, não vos contenteis apenas com o “estar angustiado“. Algumas pessoas se contentam com isso. Desde que estejam comovidas, que estejam com medo, para elas está bom. Isso lhes parece já ser a perfeição da graça. Mas não é assim. Comoção ainda não é conversão; “estar angustiado” também pode levar à perdição. Pois “andar como os cegos” não é outra coisa senão buscar uma saída e não a encontrar?

Se a vossa angústia não nasce da obra do Espírito, que vos revela a vossa cegueira, não é Paulo o vosso exemplo, mas Judas.

Sois então como o homem que, no navio que afunda, tendo ficado “angustiado“, não desce ao bote salva-vidas, mas “como os cegos” busca uma saída nas ondas furiosas, onde, contudo, encontra a morte.

Mas se a vossa “angústia” foi despertada pelo Espírito de Deus, então a Escritura vos indicará o caminho a seguir. Maeterlinck deixa os homens se angustiarem e se perderem. A Escritura ameaça o mesmo aos incrédulos. Mas aos crentes, ela aponta um caminho muito mais excelente: se eles aqui primeiro aprenderem a confessar sua cegueira, então verão!

Portanto, orai para que o Espírito “ilumine vosso olho, e faça a escuridão (da cegueira) clarear”.3 O mundo está, segundo a palavra de um poeta, “desviado para a trilha errada”, isto é, perdido no caminho errado, “como os cegos“. Mas ele não sabe disso; ele não está agora com medo, como Maeterlinck sonha. Mas um dia estará, como Sofonias profetiza. E então ele “andará como os cegos“, isto é, mergulhará na perdição, irrevogavelmente. E esse juízo é justo, pois Deus de fato os angustia, mas não os tornou cegos; Deus não pode cegar, pois Ele é o Pai das luzes. A única coisa que Ele pode fazer é… deixar que permaneçam cegos.

Mas o que Ele também pode, quer e fará, é fazer ver. Vinde, confessai então a vossa cegueira.

Admiti apenas o que (com alguma modificação) disse aquele poeta, que também andara como os cegos, que buscam sem encontrar, e que agora confessava:

Andei por tanto tempo, tão errante,4

busquei, e não encontrei;

ai de mim, fui longe demais,

e na trilha errada me perdi!

E se ali vossa estrela não estivesse,

ó Deus, há muitos instantes,

eu permaneceria no erro, na ilusão,

e na morte seria devorado!5

Sim, como os cegos!

Mas, se também sabeis disso, então vereis! Então orareis:

Ó Luz Eterna, aparece; nós esperamos

pela virada destas noites terrenas:

onde demoras, por tanto tempo aguardada;

Tu, a única luz, de todos os sóis

sois a origem; Tu, que não principiastes,

nem conheces dia, nem escuridão!6

E então, mesmo quando vosso olho terreno entrar na cegueira da morte, confessareis e jubilareis:

Em vão tentaste, em lâmpadas cegas e surdas

a algum lugar te apegar;

Em vão por luz falha teu precioso ser pagaste…

Deus te ilumina, ó minha alma e… sem medo, de vagar

Na luz eterna, assim infalivelmente triunfarás!7

Ouvis? Destemidos. Não “angustiados“. Na luz eterna. Como aqueles que veem!


Informações sobre a Tradução: A presente publicação consiste em uma tradução livre integral de “Gaan als de blinden”. O texto aqui apresentado recebeu o título em português “Andar como os cegos”.

SCHILDER, Klass. Gaan als de blinden. Geref. Kerkblad voor Drente en Overijsel [Jornal da Igreja Reformada de Drente e Overijssel], 8 jul. 1916.

O conteúdo e as interpretações expressas neste material são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es) e não refletem, necessariamente, a visão ou o posicionamento editorial da Editora Via Continental.

Nota Editorial (para Publicação Web): Para esta publicação online, alguns títulos de seção (tópicos) e as imagens foram inseridos pelo editor com o objetivo de otimizar a leitura e a experiência visual do usuário. O texto bíblico utilizado é da Bíblia Almeida Revista e Atualizada (ARA).


Notas:


  1. Maurice Maeterlinck (1862-1949) foi um renomado escritor belga, laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1911. Sua obra é frequentemente associada ao simbolismo, explorando temas como o destino, a morte e o mistério da existência humana. [N. do E.] ↩︎
  2. Este trecho poético, cuja autoria não é especificada no texto original, serve como uma ilustração dramática do Juízo Final. Suas imagens evocam passagens bíblicas que descrevem o clamor por ocultação diante da ira divina (cf. Apocalipse 6.16). [N. do E.] ↩︎
  3. Cf. Efésios 1.18, 2 Coríntios 4:4, 6. [N. do E.] ↩︎
  4. ‘Erre gaan’ significa vagar/perambular (como os cegos). [Nota do editor: Esta é uma nota de rodapé no texto original holandês que esclarece o significado da expressão arcaica “erre gaan” usada no poema.] ↩︎
  5. Herman F. Kohlbrugge (1803-1875) foi um proeminente teólogo e pregador reformado holandês, conhecido por sua profunda espiritualidade e sua ênfase na salvação pela graça somente. Seus poemas e hinos são frequentemente encontrados em coletâneas de cânticos reformados. O poema em questão é uma paráfrase do Salmo 119:176, que diz: “Andei errante como ovelha perdida; busca o teu servo, pois não me esqueci dos teus mandamentos.” [N. do E.] ↩︎
  6. Este poema é um hino litúrgico e é amplamente atribuído a Guillaume de Saluste Du Bartas (1544-1590), poeta huguenote francês. No entanto, a versão em holandês é uma tradução e adaptação de Guillaume van der Goude, feita no século XVII, e faz parte de várias coletâneas de hinos e salmos, como o “Oude en Nieuwe Liedboek” (Antigo e Novo Livro de Hinos) ou versões mais antigas do “Liedboek voor de Kerken”. É um hino sobre a espera da luz divina. [N. do E.] ↩︎
  7. Este poema é atribuído a Dirck Rafaëlsz. Camphuysen (1586-1627), um teólogo, filósofo e poeta neerlandês. É uma peça lírica que reflete sobre a busca humana por luz e consolo fora da fonte divina, e a inevitável desilusão. Faz parte de suas “Stichtelycke Rymen” (Rimas Edificantes). [N. do E.] ↩︎

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