Texto: Dia do Senhor 42
Leitura: Levítico 25.23-38
Salmos: Salmo 115.6, 7, 8; Salmo 24.1-3; Salmo 1.1, 2; Salmo 62.4, 7
Amados no Senhor Jesus Cristo,
O oitavo mandamento, que exige obediência esta tarde, é o mandamento referente à posse e à propriedade. E, portanto, abrange todo o espectro de nossa vida socioeconômica, incluindo comércio, indústria, intercâmbio, trabalho diário, compra e venda, e todas as profissões e empreendimentos.
Seria impossível enumerar tudo o que está abarcado por este mandamento e se relaciona com esta exigência. Contudo, não preciso pormenorizar. Prontamente se compreende: trata-se do que se faz por dinheiro e do que se faz com o dinheiro, quer se tenha em pouca ou muita quantidade.
E neste campo, peca-se terrivelmente, tão abominavelmente quanto no campo do sétimo mandamento. As pessoas, felizmente, ainda abominam a bestialidade, isto é, um viver animalesco na esfera sexual. Contudo, no domingo passado bem compreendemos que o pecado não reside apenas nas formas grosseiras e repugnantes em que alguns praticam esses pecados, mas também na maneira decente e respeitável em que todos se tornam culpados aqui.
Isso é adultério – e assim o declarei – quando tentamos fazer do casamento algo para nós mesmos, uma instituição de toda sorte de prazeres perfeitamente lícitos, um meio para enriquecer e tornar nossa vida mais agradável.
Isso é adultério, se vivemos castamente e, ainda assim, subtraímos o casamento do serviço de Deus, se o casamento para nós não está sob o signo do sacrifício, se por nós não for conscientemente colocado a serviço da santificação do nome de Deus, da vinda do seu Reino e do cumprimento da sua vontade.
Isso é adultério — pode-se também afirmar — se nos comportamos de maneira civilizada e pura no casamento, mas, entretanto, com toda a nossa vida conjugal, nos furtamos ao Senhor, nos colocamos fora da aliança, na “pia” ilusão de que a aliança diz respeito apenas ao céu, às coisas espirituais, à eternidade e à salvação.
O casamento, como muitas vezes foi dito, é a união entre um homem e uma mulher. E tudo o que se opõe a isso é impureza. Isso certamente é verdade; sim, faz parte. Mas o casamento, contudo, é mais do que isso: é que o homem e a mulher, juntamente com seu casamento, se entreguem ao Senhor.
Não é que o homem seja uma parte e a mulher a outra, mas é assim: homem e mulher, que se tornaram uma só carne, são uma parte e a outra é o Senhor. Assim, o casamento está na aliança. Ele tem seu próprio lugar e significado no Reino dos céus e para a sua vinda. Nesse caso, também nele se trata do serviço do Senhor.
Paulo viu isso muito claramente em Romanos 1. Deus deve ser reconhecido. Não que o homem seja obedecido pela mulher, nem que a mulher seja amada pelo homem, mas que Deus seja reconhecido e servido por ambos.
E, de outro modo, em sua ira, Ele entrega essas pessoas civilizadas e respeitáveis a um sentido depravado, para fazerem coisas que não convêm. Então, elas chegam à bestialidade, mesmo que agora ainda a aborreçam.
Essa era a essência do sétimo mandamento.
E o fato de eu retornar a isso agora tem um propósito especial. Não é apenas para esclarecer a conexão entre este mandamento e o anterior para aqueles que porventura não estiveram presentes no domingo passado. Nem se trata apenas de explicar a conexão, para que os ausentes também possam retomar o fio dos sermões do Catecismo, embora essa seja também uma de minhas intenções.
Mas, esta tarde, a isso se acrescenta esta consideração: o que apontamos no domingo passado como o sentido, a essência do sétimo mandamento, possui também seu significado para o oitavo.
Quero dizer apenas isto: também a essência do oitavo mandamento é que, nesta parte de nossa vida, estamos na aliança, e que, portanto, é crucial manter as leis da aliança, ou seja, viver para o Senhor em comunhão uns com os outros.
Abordaremos, sucessivamente, os seguintes pontos:
- O fundamento da vida social.
- A restauração da vida social.
- A exigência para a vida social.
1. O fundamento da vida social.
O Catecismo é de fato muito profundo na exposição do oitavo mandamento: Deus não proíbe apenas o roubar e furtar que a autoridade pune. E parece que a maioria das pessoas pensa assim. Elas se cuidam para não se apoderar do dinheiro do próximo, para não caírem nas mãos da justiça.
E se as pessoas vivem de tal forma que não entram em contato com o juiz criminal, pensam que isso já é o cumprimento do oitavo mandamento. E, certamente, isso faz parte, mas é apenas uma pequena parte. Mínima, aliás. Não pode ser expresso em termos percentuais. Caso contrário, eu diria: no máximo 1%.
Porque essas transgressões do oitavo mandamento que a autoridade pune são apenas uma parte quase imperceptível das transgressões que Deus pune aqui. As formas de roubo que nos levam à prisão não significam nada em comparação com as formas de roubo que nos levam à condenação, se Deus não o impedir e se não nos arrependermos.
Por isso, esta tarde, não falarei de forma alguma sobre o roubo que a autoridade pune. Pois bem se sabe que se deve manter as mãos longe.
Há também maneiras de prejudicar o próximo onde a autoridade não intervém e que, no entanto, são condenadas pela opinião pública. Coisas que não são punidas e que, no entanto, são desonestas. Mas, ainda assim, devemos ter cuidado para não deixar que a lei seja ditada pela opinião pública, pelo senso comum de direito e equidade da humanidade, pela voz da consciência sobre o que é meu e teu.
Naturalmente, essa voz da consciência, a consciência pessoal e a consciência coletiva, tem grande significado. E por ela a explosão do pecado é aqui contida, mais do que pela atuação da autoridade. O poder da espada, com que a autoridade reprime o roubo, não é, de longe, tão grande quanto o senso de honestidade e equidade, com que Deus, em sua “graça comum”, freia o poder do pecado.
Mas bem se sabe: também a consciência já não fala com pureza. Pode-se cauterizar a consciência com um ferro em brasa, e Deus também pode entregar as pessoas em massa, de modo que a consciência nelas fale cada vez mais fracamente e, finalmente, emudeça.
Há também muitos pecados nesta área contra os quais a opinião pública não luta, pecados que não são mais vistos como pecado. Pecados que estão estabelecidos em costumes. Há mais coisas vis, falsas, astutas e desonestas do que as pessoas imaginam.
O oitavo mandamento não é: cuidar para que nos seus negócios não se tenha a autoridade contra si. Nem é: cuidar para que não se tenha a opinião pública, a consciência popular, contra si. Mas o oitavo mandamento é a lei de Deus. É, portanto: viver nisto de tal forma que Deus não se torne um inimigo para si. Ou, positivamente: viver assim, também nesta área, para que o Senhor possa ver com agrado e não precise esconder o seu rosto.
E essa é, portanto, a grande questão desta tarde: quando gastamos nosso dinheiro e bens de tal forma que o agrado de Deus repouse sobre eles? Como deve ser nossa vida socioeconômica para que a ira de Deus não repouse sobre ela?
É evidente que o ministério da Palavra aqui não pode nem deve entrar em minúcias. O ministério da Palavra não pode, de forma alguma, dar um manual para todas as possíveis questões concretas. E não deve fazê-lo: para isso temos nossas organizações. Essa é a tarefa da organização: desenvolver a exigência do Senhor na situação concreta deste tempo e em relação às circunstâncias locais em contratos, regulamentos salariais e fixação de preços.
Mas o que o ministério da Palavra pode fazer, e certamente deve fazer, é apontar os grandes princípios da Escritura. Apontar as linhas mestras pelas quais nossa vida socioeconômica deve se mover, a fim de que seja conforme a Palavra do Senhor.
E então devemos, como em todos os mandamentos, recordar a história do paraíso. Eu sei: não é bom começar cada sermão com Adão e depois percorrer toda a Bíblia, para finalmente fazer a eternidade vir à tona. Isso não é pregar.
Mas, ainda assim, o próprio Cristo nos ensinou que, nos mandamentos, devemos dirigir nosso olhar ao início de nossa história, isto é, à vida no paraíso.
Quando Cristo, em Mateus 19, disputa com os fariseus sobre a permissibilidade do divórcio, e os fariseus se apoiam em Moisés e no direito consuetudinário que acreditavam poder derivar de Moisés, então Ele diz: “Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossa mulher; entretanto, não foi assim desde o princípio.” (Mateus 19.8).
Isto é, a norma para a vida conjugal não pode ser derivada, em última instância, de Moisés, pois este teve que levar em conta a dureza dos corações; mas essa norma é encontrada apenas na vida como era desde o princípio.
E o mesmo se aplica aqui ao oitavo mandamento. A norma para a vida de dinheiro e bens, essa norma foi estabelecida no estado como era desde o princípio. Se nossa vida for conforme a vontade de Deus, então não basta que ela responda à lei da autoridade hoje ou à lei não escrita do costume, que perdura desde tempos imemoriais, mas deve ser uma vida em conformidade com a vida no princípio.
Deve, então, estar no mesmo nível de outrora, responder às mesmas leis daquela época, as leis da criação; a vida deve se desenvolver segundo as grandes linhas que Deus mostrou ao homem no princípio.
E assim chegamos ao paraíso: a vida dos bens materiais no princípio. Não preciso explicar isso detalhadamente: no princípio havia a aliança. E nessa aliança o homem era filho de Deus, que desfrutava do amor do Pai.
Por isso, o Pai concede a seu filho na aliança também o gerenciamento de todos os seus bens: “Dominai sobre a terra e sujeitai-a.” (Gênesis 1.28). “De toda árvore do jardim comerás livremente” (Gênesis 2.16). Esse é o rico homem da aliança primordial, o filho de Deus que recebeu todas as coisas e pode desfrutar de tudo e gerenciar tudo.
Naturalmente, não de forma que o homem possa fazer o que quiser. Nem que Deus se retire para o céu e entregue a terra ao homem. Nem tampouco que o céu seja o terreno de Deus, onde Ele é o governante ilimitado, enquanto o homem seria soberano na terra. A terra também é do Senhor, com toda a sua plenitude: “Ao SENHOR pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam” (Salmo 24.1).
Deus é e permanece o grande Proprietário de todas as coisas. O homem não se torna proprietário. Nem um grão de terra, nem um fio de grama, nem uma gota de água, nem um centavo é seu.
Tudo está sob o controle do homem. Eu quase diria: em comodato. Mas essa não é a palavra certa. Pois isso dá a impressão de que é do Senhor, mas que Ele o cedeu ao homem, para que este o utilizasse em seu próprio benefício.
O Senhor não fez os homens usuários, parasitas que se alimentam dos dons de Deus, arrendatários que tiram da terra o que nela está, não para seu proprietário, mas para si mesmos. O Senhor não deu ao homem o direito de esgotar os recursos.
Mas Ele o fez — essa é a palavra maravilhosa da Escritura — mordomo. O mordomo tem a administração de todas as propriedades, e ele pode, naturalmente, comer de seus frutos, mas ele não exerce essa administração em benefício de sua própria bolsa; ele tem os negócios de seu senhor para cuidar.
Ele é nomeado não para se tornar rico, mas para que seu senhor se torne rico.
Essa é a aliança na vida social: o homem é filho do Senhor, podendo, então, desfrutar de tudo o que é do Pai. Mas ele é mordomo: não pode usar tudo em seu próprio benefício, mas para o bem de seu Senhor. Ele não trabalha uma hora para si mesmo, mas sempre para o Senhor.
Voltaremos a isso imediatamente; mas as pessoas não entendem mais isso. Elas aceitam o desfrute de tudo o que o mundo oferece como um direito natural. Elas têm direito a isso, dizem.
“O mundo é nosso; quem é senhor sobre nós?” Tal é o homem que se imagina um proprietário soberano, que não deve contas a ninguém, que simplesmente vive para si mesmo. Então, essa vida se manifesta, como hoje a conhecemos em toda a sua miséria: a vida do egoísmo brutal, tanto nos grandes quanto nos pequenos.
As pessoas estabeleceram a vida fora da aliança. O que recebem é direito, não é favor. O que recebem não veem como sua herança como filhos. Possuem fora da aliança. E seu trabalho, então, já não o veem mais na aliança, como um ofício, como um servir no amor do Pai, como um cuidar de seus negócios; mas como um cuidar de seus próprios interesses.
Não, não foi assim desde o princípio.
Pois, então era assim: o filho desfrutava de tudo o que o Pai lhe concedia em sua graça; e todo o seu trabalho era, portanto, uma obra de gratidão, uma vida para o Pai. Ele não pensava em seu próprio pão, para cujo sustento deveria trabalhar. Não se tratava simplesmente de comer. “Por que ele ainda deveria trabalhar?”, perguntam as pessoas hoje, “se ele já tinha seu pão? Ele poderia ir vadiar?”. Mas isso já trai nossa visão profundamente corrompida sobre esta parte da vida.
Para que trabalhamos? Para conseguir nosso pão. Mas não foi assim desde o princípio! Por que Adão trabalhava? Não para conseguir pão, mas porque havia recebido o pão.
Imaginem Adão como ele trabalhava então! Trabalhar por pão? Como se houvesse algo mais ímpio! Como se houvesse algo que mais significasse a negação prática da aliança. Imaginem que Adão cultivasse o jardim para poder comer. Ele não trabalhava para comer. Mas ele comia para trabalhar.
Essa é a lei fundamental do oitavo mandamento, a lei fundamental como foi cumprida puramente no princípio. Não: primeiro trabalho, depois pão. Mas: primeiro pão, depois trabalho.
E então, imediatamente se vê o caráter de seu trabalho: ele não trabalha por interesse próprio, mas trabalha no cultivo do mundo para o Pai. O que o impulsiona ao trabalho é o amor do Pai que lhe deu tudo. E o que ele tem em mente nesse trabalho é o amor ao Pai, que lhe deu o ofício de mordomo.
Há algo mais belo do que o pai confiar a administração de sua empresa ao filho? E há algo mais horrível entre os homens do que isto: que o filho traia essa confiança e coloque o lucro no próprio bolso e roube seu pai?
Naturalmente: Adão não podia fazer esse trabalho sozinho. Ele tinha que fazê-lo em comunhão com toda a geração seguinte. Essa comunidade humana, na aliança, podia comer de tudo.
Mas essa comunidade também tinha a tarefa de colaborar para o desenvolvimento do mundo do Pai. Assim, conforme o propósito de Deus, surgiria uma comunidade de mordomos, que em cooperação unânime, cada um em seu lugar e com seus próprios dons, fariam o trabalho do Pai.
E funcionou: a comunidade dos homens era sólida. Eles trabalhavam juntos em amor, sem desavenças. E a comunhão com o mundo também existia: a terra não resistia, mas se submetia de bom grado ao domínio do homem.
E assim, essa humanidade em constante crescimento revelaria cada vez mais os tesouros do mundo, e como filhos desfrutariam deles, mas também por amor, como mordomos, explorariam o mundo para o Pai. Essa é a vida socioeconômica do princípio.
2. A restauração da vida social.
E então, bem se conhece a ruptura causada pelo pecado.
Então veio a ruptura entre as pessoas: elas não trabalham mais juntas, nem mais uma para a outra, mas afastadas umas das outras, e uma contra a outra — como mencionei a respeito do sexto mandamento.
Então veio a ruptura com o mundo: o mundo trabalha contra o homem e não se coloca mais a seu serviço. Ele não consegue mais dominá-lo. Não é mais senhor sobre o que foi criado.
Então, acima de tudo, há a ruptura com o Pai: o homem não tem mais direito, nem mesmo a uma só coisa. E se, ainda assim, ele estende a mão para o que foi criado, isso é um roubo, furto. E já não pensa mais em ser mordomo. Ele não quer mais e não pode mais. Ele vive para si mesmo. E isso, quanto maior for o esforço.
Essa é a morte na vida socioeconômica.
Mas então há também a restauração em Cristo Jesus.
Essa restauração é revelada no Éden. Deus veste o homem com vestes de peles. Ele lhe concede, por graça, o uso do que foi criado. Isso não é graça comum; não, é graça especial. O homem pode manter o mundo: pois Cristo lhe adquirirá o direito a isso.
Pela obra de Jesus Cristo, que será realizada na plenitude dos tempos, o Senhor estabelece novamente a aliança de sua graça. E nessa aliança o homem, como filho, recebe novamente sua herança como filho. Ele recebe ali novamente seu ofício: ser mordomo sobre tudo o que o Pai tem.
Ele recebeu em Cristo Jesus novamente a filiação, e com ela também o pão dos filhos. E com ela também o encargo dos filhos: ocupar-se com as coisas do Pai.
E em Cristo Jesus, por causa da Sua obra, também para os filhos a maldição sobre a vida é levantada: “Tudo o que fizer será bem-sucedido” (Salmo 1.3). Seu trabalho não é vão no Senhor.
Isso não significa que eles têm sucesso em todo o seu trabalho, o que o mundo define como sucesso. Mas isso não quer dizer que o trabalho deles não dê frutos, mesmo que pareça que tudo se desfaz em suas mãos. Nenhuma maldição pode mais destruir os resultados de seu fiel trabalho de mordomia: afinal, não são as coisas do Pai?
É o seu mundo, que Ele ama em Cristo. Não são apenas os pequenos negócios dos homens, os pequenos empreendimentos de indivíduos, mas é o mundo do Pai. É a Tua causa, ó Cabeça e Senhor, a causa pela qual nos dedicamos!
Isso não se aplica apenas à igreja, ou à escola, ou à evangelização, ou às missões. Isso se aplica também a toda a vida econômica, a todo o comércio e empreendimentos: não à loja de A e à fazenda de B e à fábrica de C e ao serviço de automóveis de D.
Mas a loja, a fazenda, a fábrica e o serviço de automóveis são de Deus, o qual, por causa de Cristo, vê essa vida empresarial em graça.
Como Deus poderia trazer a maldição para essa vida, depois que Cristo também com seu sangue a comprou e libertou?
Assim sendo: não são empreendimentos particulares, mas são todos componentes da grande empresa do Pai, departamentos de seu único edifício. E somos apenas mordomos, um aqui, outro ali.
E eu disse no sexto mandamento que em Cristo as pessoas também estão novamente unidas, de modo que não são mais concorrentes umas das outras, que se opunham, mas irmãs umas das outras, que colaboram no único trabalho do Pai.
Assim, há restauração da vida socioeconômica em Jesus Cristo.
Eu sei, essa restauração ainda não é perfeita. Ainda há esforço no trabalho das mãos. Ainda há muitas vezes um abismo entre as pessoas. Mas a restauração já está presente. Não há mais maldição em nosso trabalho. Há disciplina, para que participemos de sua santidade. Ainda há distância entre as pessoas: mas o Espírito de Cristo está em nós e nos impulsiona uns aos outros.
Assim, há o início da restauração. E por meio da Palavra e do Espírito, Cristo também trabalha na concretização dessa redenção; e nesse trabalho Ele inclui as disciplinas e provações. Pois “Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem sucedido” (Salmo 1.3).
3. A exigência para a vida social.
Ora, essa restauração não é algo que nos cabe sem a nossa cooperação. Naturalmente, é preciso entender isso bem.
É pura graça que Deus, em Cristo, restaura o mundo, inclusive a vida social. Não é obra nossa. Mas a plenitude dessa restauração não vem sem o nosso trabalho como colaboradores de Deus. A Escritura diz: “desenvolvei a vossa salvação” (Filipenses 2.12).
No início, o Senhor trabalha sozinho, mas em seguida, nosso trabalho também se acrescenta a isso, para o qual o Senhor nos capacitou em graça.
E assim, o Senhor agora nos convoca, no oitavo mandamento, a sermos Seus colaboradores na restauração desta área, a concretizar aqui nossa salvação, a ajudar a dar-lhe forma.
“Não furtarás”: isso significa: deve-se comportar com dinheiro e bens de acordo com a lei do princípio. Deve-se ver e manifestar-se nestas coisas como filho-mordomo. Deve-se entregar, em comunhão com os outros, às coisas do Pai; não aos empreendimentos particulares, mas à grande obra do Senhor.
E que isso se concretize! Que se concretize na igreja!
Como as pessoas trabalham? Cada um por si. Ninguém para Deus! Ou seja, ninguém se conhece como mordomo.
Cada um por si: isto é, estão como indivíduos isolados uns ao lado dos outros. Não há vínculo, não há comunidade, não há ajuda mútua na tarefa comum. Pelo contrário, trabalham uns contra os outros.
Nestas coisas não estamos na aliança. Não servimos a Deus e ao próximo com o dinheiro.
Por que não queremos ser mordomos? Não cumprimos nosso ofício da aliança? Porque nestas coisas não nos conhecemos como filhos do Pai.
Quanto mais penso nessas coisas, mais nitidamente vejo que essa é a causa de toda a miséria: a incredulidade. Não trabalhamos como mordomos, apresentamo-nos como proprietários, simplesmente porque não nos conhecemos como filhos pela fé. Não cremos que já temos nosso pão em Jesus Cristo, por graça.
Ainda agimos como se tivéssemos que trabalhar por isso. Quem de nós não trabalha para comer, não se esforça para acumular, quem não se esmera para ter um pouco de bens?
E então o revés nos desanima, e a crise nos faz suspirar: “O que comerei? O que beberei?”. Isso, na verdade, significa: “Estou entregue a mim mesmo. No meu trabalho! Preciso depender de mim mesmo para isso.”
Por que, de fato, ainda oramos por nosso pão de cada dia? Bem, Cristo nos ensinou isso. E então o fazemos. Mas nossa vida de trabalho contraria diretamente nossa oração.
Queremos ganhar nosso pão com nosso trabalho. Somos dependentes de nosso trabalho nisso.
E assim, nosso trabalho é, na verdade, uma maldição, porque em nosso trabalho negamos o que confessamos na oração.
Quem trabalha por pão, dizendo: “O que comerei senão isto?”. Ora, esse recebe de nós um elogio. É diligente e meticuloso. Mas Cristo diz dele: “Porque os gentios é que procuram todas estas coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas” (Mateus 6.32).
Que coisa seria se os filhos se esforçassem para ganhar seu pão. Dir-se-ia: “Filho, eu cuido do teu pão. Faz o teu melhor, mas não te preocupes com a questão do pão.” E se uma criança age como se seu pão dependesse de seu trabalho em vez da dádiva do pai, isso é um atentado à honra do pai.
Mas assim vivemos praticamente para Deus. Contudo, Ele diz da nossa vida: “Se eu sou Pai, onde está a minha honra?” (Malaquias 1.6). Onde está a confiança de que se recebe o pão, a herança como filho, por graça? Que Ele cuidará disso?
Ainda há quem aqui não entenda essas coisas. Que critica tais sermões. Que pensa que isso cultiva a despreocupação. E aqueles que entendem, ainda agem tão pouco a respeito. Se eu pudesse fazê-los compreender!
Uma criança em casa recebe seu pão. Do pai. Não por seu próprio trabalho. O amor lhe preparou o pão. Não precisa trabalhar por isso. E assim estamos na aliança. Como filhos que têm certeza de seu pão, enquanto precisarem dele. Temos em Cristo nosso pão. E ai daquele que trabalhasse por ele.
Aquele que trabalha para comer, em vez de comer para trabalhar. Pois essas coisas os gentios fazem. Mas aos seus filhos, Deus diz: “Tudo é vosso.” (1 Coríntios 3.21). “Ao SENHOR pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam” (Salmo 24.1). E de tudo se comerá livremente. Por causa do trabalho? Não, por causa de Cristo.
Temos o nosso pão. E isso é que torna o nosso trabalho tão belo.
Agora o medo se foi. Agora só pode ser amor ao Pai. As pessoas dizem: “se alguém tem certeza de seu pão, ele fica preguiçoso.” Mas a Escritura diz: o filho que come o pão da graça trabalha com a maior diligência possível por gratidão.
E agora chego ao ser mordomo.
“Tudo é vosso.” Mas “vós sois de Cristo, e Cristo de Deus.” (1 Coríntios 3.23). Isso significa que tudo lhes foi dado em Cristo. Mas na aliança deve-se servir a Deus com isso.
Ah, sim, ouve-se quando isso é dito na igreja. Mas amanhã voltamos a agir como proprietários. Então cada um corre novamente atrás de seus próprios interesses. Para sua própria casa, para seu negócio, para a fazenda.
Todos os mordomos estão novamente utilizando o tempo de seu Senhor, e com as forças e os bens de seu Senhor, ocupados trabalhando para si mesmos. E a obra de Deus eles deixam de lado. E isso, depois que fomos restaurados pela graça à mordomia.
É para isso que Cristo derramou seu sangue: para que nós, assim como os gentios, estejamos ocupados conosco mesmos?
Pede-se dinheiro às pessoas para a obra de seu Senhor: para a igreja, ou para a escola, ou para as missões, ou para a Universidade Livre ou para a Escola Superior Teológica. Não quero reclamar, pois aqui há progresso. E sou muito grato por isso. Vejo nisso o poder da Palavra. Mas ainda estamos longe. E o progresso ainda não é geral.
Pergunte-se: para que se põe dinheiro na mesa mais prontamente, para a casa de Deus ou para a própria casa? Para a igreja e a escola, ou para a própria empresa? Para um órgão na igreja, ou para um rádio em casa?
Pouco vemos que o mundo não existe para tornar nossa vida mais agradável, que temos dinheiro e bens não para nos acomodarmos de forma aconchegante e confortável, mas para fazer a obra do Senhor. Cada um de nós considera suas próprias coisas tão incrivelmente importantes. Mas pensava-se que era para isso que o mundo existia: para que um tivesse sua própria casa e o outro um rádio? Que se deve trabalhar para isso?
Tudo foi criado por causa de Deus. Trata-se da causa Dele. E então nós mesmos também temos muito e em abundância. Então desfrutamos de todos os dons de Deus. Mas, acima de tudo, porque podemos ser mordomos, colaboradores em sua grande obra, a obra da redenção do mundo.
O oitavo mandamento exige, antes de tudo, nosso dinheiro para o serviço da igreja, para o trabalho no Reino de Deus. Às vezes, tem-se a impressão de que alguns pobres consideram a igreja como uma espécie de luxo. Primeiro isto, depois aquilo, e só a longo prazo, a igreja. Praticamente na última fila. E os mais abastados, às vezes, doam uma esmola à igreja. Ninguém entende que somos mordomos para fazer a obra de Deus.
Se ao menos nos víssemos na Aliança. Se vivêssemos mais abundantemente da fé. Então seríamos mordomos. E contribuiríamos de bom grado, se o dinheiro fosse solicitado para a obra de Deus. Muitos dizem: “sempre se pode continuar dando.” Geralmente são as pessoas que nunca ou apenas começaram a dar. Mas, tudo bem: “sempre se pode continuar dando.”
Sim, naturalmente: o mordomo não existe para acumular para si mesmo. Mas para pagar o que é necessário para a obra do Senhor.
Naturalmente: então, em tempos de prosperidade, sobra algo. E não o esbanjamos. Pode ser útil mais tarde para a obra do Senhor. Não: “Eu posso precisar disso mais tarde. Preciso cuidar do meu futuro.” Mas, sim: “O Senhor pode precisar disso mais tarde para sua obra.”1
Para a igreja e todas essas coisas, para os pobres, para a manutenção da vida empresarial, para a educação dos filhos. Para todas as coisas. Mas então, com fé. Sem preocupação. E equilibradamente. Não ser o mais mesquinho possível para as grandes obras de Deus.
Assim, a perspectiva entra em nossas vidas. Sobre todas essas coisas de formação de capital e temas relacionados. Às vezes, ouve-se a expressão de que, se os agricultores não fossem apoiados em tempos difíceis, teriam deixado suas terras em pousio. Ninguém poderia exigir-lhes que arriscassem seu capital acumulado.
Ainda não tenho certeza disso. Naturalmente: nenhum ser humano pode exigir isso deles. Nenhum trabalhador tem autoridade sobre o cofre do patrão. Bastante lógico. E não há ninguém que deseje que eles, em tal tempo, vivam tão frugalmente quanto em tempos de prosperidade. Gastar o patrimônio é sempre uma política de falidos. Concordo plenamente.
Mas eu nego que alguém, diante de Deus, teria o direito, em tempos de declínio, de simplesmente parar sua empresa porque se torna muito prejudicial para ele. Ele não deve perguntar o que é prejudicial para ele. Ele deve apenas, também em tempos de declínio, perguntar o que é necessário para a obra de Deus, para o seu Reino. E nada mais.
Isso não é, portanto, o sistema de imprudência: “quem vive hoje, cuida depois”. Com a obra de Deus não podemos ser tão imprudentes.
Mas também não podemos agir como se fossem nossos próprios pequenos negócios, como se fosse sobre o interesse de nossa carteira. Nenhum de nós tem um negócio próprio. Pois a terra é do Senhor. Por isso, ninguém trabalha para si mesmo. Pois a terra é do Senhor. Quer alguém ganhe, quer perca: tudo é do Senhor.
Em tempos de progresso e em crise: a terra é do Senhor. Ninguém trabalha para si mesmo, ninguém poupa para si mesmo, ninguém gasta para si mesmo. Pois nenhum de nós vive para si mesmo. Somos do Senhor.
E se essa fé penetrasse, de que somos apenas mordomos, então as relações sociais seriam sadias. Agora, uma organização se opõe à outra, como inimiga. Agora, um é o concorrente do outro. Puro egoísmo.
Mas se crêssemos, ainda existiria concorrência. Contudo, o aguilhão mortal teria sido removido. Um não tentaria destruir o outro. Mas um competiria com o outro no serviço do Senhor.
Então, nenhum patrão exploraria mais um trabalhador, nem um trabalhador parasitaria a comunidade. Hoje existem dezenas de exploradores em todas as classes sociais. Hoje é assim: o tempo está perfeito para a colheita do feno. Mas pode vir uma tempestade. Ora, há um trabalhador por perto. Ajuda por meio-dia. Com uns trocados, eu o mando para casa. Isso me economiza pelo menos alguns reais.2 Chega bem a tempo. A comunidade não é vista nisso.
Se esse é o vínculo uns com os outros! Se os agricultores consideram os trabalhadores como pessoas que chamam quando lhes convém, e mandam embora quando querem, se não têm consideração por eles; então isso é pagão. E isso gera a revolução.
Hoje, também é assim: pode-se conseguir trabalho, mas ganha-se pouco mais do que se receberia de auxílio. E o trabalho é bastante pesado. Então se pede o auxílio-desemprego. Isso é igualmente roubo.
E também não há consideração mútua. Nem para a obra do Senhor.
Ou também isto: as pessoas têm muitas coisas bonitas e apenas acumulam. Mas este ainda quer ter tanto, e aquele ainda tanto. Viver acima da própria condição. E fazer com que outro pague a conta. Isso também é roubo. E eu sei que esse mal também ocorre entre nós.
Se todos nós servíssemos a Deus com dinheiro e bens, também nos serviríamos uns aos outros. Não nos explorando, mas nos ajudando e apoiando. Agora há o egoísmo mais grosseiro. Sim, é uma forma um tanto diferente, mas aqui também se trata da contraposição “Barrabás-Cristo”. Busca-se o interesse próprio ou a justiça de Deus?
Trabalhamos duro, enquanto é para nós mesmos. Mas não trabalhamos para Deus e para o próximo.
E pensamos que assim progrediremos. Mas assim vamos afundar. Isto é: pôr o carro na frente dos bois. Pois quem não trabalha, também não comerá. Ou seja, quem não gasta seu dinheiro e bens no serviço do Senhor, esse não trabalha.
E ele não comerá. Mesmo que o egoísmo o impulsione à maior atividade.
Mas quem crê em Cristo Jesus, e trabalha como mordomo, esse comerá. Mesmo nos tempos difíceis. Pois seu pão não depende de seu trabalho. Nem é suprimido pelo desemprego. Ele o recebe diariamente como filho do Pai. Mordomos que se enriquecem serão destituídos. Mas quem fielmente cuida dos negócios do Senhor, esses entram em sua alegria. Já hoje.
Amém.
Domingo, 28 de fevereiro de 1937
Informações sobre a Tradução: A presente publicação consiste em uma tradução livre integral.
HOLWERDA, B. De dingen die ons van God geschonken zijn [As coisas que nos são dadas por Deus]: Catechismuspredicatiën [Pregações Catequéticas]. 1953.
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Nota Editorial (para Publicação Web): Para esta publicação online, alguns títulos de seção (tópicos) e as imagens foram inseridos pelo editor com o objetivo de otimizar a leitura e a experiência visual do usuário. O texto bíblico utilizado é da Bíblia Almeida Revista e Atualizada (ARA).
Notas:
- No trecho original, o autor usa a palavra “Neen” (Não) duas vezes seguidas para criar um forte contraste retórico. A estrutura é: “Não pense [desta forma]… Não, [pense desta outra forma]”. Essa era uma maneira enfática de rejeitar uma ideia e apresentar a alternativa correta. Na tradução para o português, a repetição do “Não” pode soar ambígua ou confusa, como se estivesse negando a segunda ideia também. A substituição do segundo “Não” por “Mas, sim…” resolve essa ambiguidade. [N. do E.] ↩︎
- Literalmente: “Mando ele para casa com algumas moedas. Isso me economiza pelo menos dez florins.” [N. do E.] ↩︎