Categoria | Bíblia

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Sermão: Salmo 45.13-15

A Glória da Igreja

Hermann F. Kohlbrugge | Doutor
29/09/2025

Quão maravilhoso é o Deus fiel em Sua condução com os Seus santos! Ele os aniquila completamente, para que somente Ele seja engrandecido neles. Ele os permite perder tudo, para que Ele seja valorizado por eles. Ele lhes tira tudo, para que Ele compense tudo com Ele mesmo. O objetivo que conhecemos é a glorificação do Seu Nome, e a nossa confirmação e duradoura felicidade n’Ele e com Ele. Ele nos torna completamente vasos vazios, para nos encher totalmente somente de Sua plenitude. O que é nosso nos corrompe, e nós nos corrompemos diariamente. Somente Ele fez tudo bem, e somente Ele salva o Seu povo dos seus pecados.

E se Ele quiser que um homem experimente verdadeiramente o que um pobre pecador tem e terá eternamente em Seu amor, então Ele lhe inflige uma ferida profunda, muito profunda. Somente Ele também a cura, e derrama nela, mais tarde, o óleo da alegria.

Quem experimentou isso clama, no sentimento da mais profunda dor: “O Senhor o faz, e ainda que Ele me fira mais profundamente, então eu O amarei ainda mais e mais intimamente; e ainda que Ele quisesse me matar, eu ainda esperaria n’Ele.”

Enquanto isso, frequentemente um homem que faz a viagem a Jerusalém fica atordoado e cai em dúvidas sobre seu Guia e seu Deus. Ali o peregrino avista Jerusalém; alegremente ele pega seu cajado e pensa que logo estará lá.

Mas o caminho se torna estreito e íngreme; aqui uma toca com leões e dragões; ali um desfiladeiro com serpentes; aqui um abismo, ali um abismo; perigos e inimigos: uma multidão muito grande. “Mas quem lhe disse que este é o caminho para Jerusalém, e que você chegará lá?”, sussurra em seu ouvido alguém que passa furtivamente. E este lhe mostra o glorioso vale de Sodoma lá embaixo, para que ele caia em seu caminho. E o peregrino já não vê nem Jerusalém, nem seu Guia, e pensa: “Está tudo acabado para mim!”

Ali uma Eva pensa ter “alcançado o Homem, o Senhor” — e eis que seu filho é um assassino. Ali Abraão espera a promessa; finalmente ela é cumprida; em sua velhice, ele recebe um filho — e deve ir com ele para Moriá. Ali um Davi foi ungido rei… e teme ainda morrer como um exilado! Sim, sejam quais forem seus nomes, os purificados — e onde está o cristão que não foi conduzido por um caminho semelhante?

Ele orava por isto ou aquilo; ele o recebia… e Deus lho tirava novamente. Ali uma viúva pensa que os amigos de seu marido ou seu filho serão seu apoio… os amigos se afastam, o filho vai para a sepultura. Ali órfãos pensam que, afinal, conseguirão sobreviver no mundo, pois têm dinheiro… e os tutores lhes retiram seus bens. Ali uma Igreja se alegra com a posse de um pastor fiel… e este deve partir para outro lugar, ou é expulso.

Ali o Senhor dá a um homem zelo contra os inimigos… e Ele permite que os inimigos prosperem, e amarra suas mãos e pés, de modo que ele é consumido até os ossos. Ali se diz: “Minha paz vos deixo”… e à menor palavra que falamos, há guerra. Ali se diz: “Não te deixarei”… e quando o mundo nos riscou do livro de sua vida, seguimos nosso caminho, como se não pertencêssemos a ninguém.

Parece-nos que tínhamos toda boa esperança, que nossa montanha agora estava firme, e… antes que percebêssemos, estamos no chão. Nenhum dia de descanso, nenhuma permanência nas alturas; cada vez mais na profundidade… e ainda assim para o Alto! Sempre “per desperata” (pelo desesperor)1 — através do desesperador — e de tudo despojado e esvaziado. Sempre: “per contraria” (pelo contrário) — através do contraditório — Assim é o caminho!

A Igreja tem o pressentimento de que a vinda do Messias está próxima. Ele vem… onde está a salvação agora? (Ah! Quantos Natais foram seguidos por uma Noite de São Bartolomeu!).2 Herodes mata em Belém: o Messias também deve ser exterminado… e Raquel não quer ser consolada, porque é o fim para ela. Eis que o Senhor, que felizmente escapou, volta do Egito! Isso não era esperado, mas agora… agora a salvação terá chegado?! Ah, ali o Salvador é pregado na cruz, encerrado no túmulo, já é o terceiro dia… e a Igreja pensa que está tudo acabado para ela.

Assim tem sido sempre, e assim continuará: feliz aquele que sempre coloca a si mesmo e seu caminho, o que ele é e o que ele tem, nas mãos de seu Deus, e julga e acusa a si mesmo, e confessa que está acabado para ele e que nossa força é somente do Senhor. Antes que isso aconteça, a alma muitas vezes tem que clamar com o Salmo 44: “Desperta, Senhor!” Este clamor o Senhor ouve.

E enquanto lutamos no caminho com todo tipo de adversidades, e as ondas de tentação e tristeza nos inundam, enquanto o maligno ruge com astúcia, ouro e violência, ou com opressão e expulsão, com roda e fogueira, tudo isso nos acontece por graça, para que não pereçamos para o inferno com Babilônia. O Senhor nos dá um ensinamento, para que não nos escandalizemos n’Ele, um consolo e um cântico de noiva, com o qual somente a Igreja, se o canta com fé, amarra todo o poder do inferno.

Para que possamos compreender isso corretamente, que o Senhor nos conceda Seu Espírito, que ressuscita os mortos, e Sua graça.

Texto:

Salmo 45.13-15:3 “Toda formosura é a filha do Rei no interior do palácio; a sua vestidura é recamada de ouro. Em roupagens bordadas conduzem-na perante o Rei; as virgens, suas companheiras que a seguem, serão trazidas à tua presença. Serão dirigidas com alegria e regozijo; entrarão no palácio do Rei.”

Quão fiel e misericordioso é o Senhor! Ele está sempre perto, por mais que pareça distante. Ele consola o Seu povo em suas tribulações, e quando as ondas do mar parecem querer engoli-los, Ele aparece e diz: “Não temas, Eu sou o teu Deus. Eu sou Teu, e tu és Meu!” E a alma se reclina, como João, no peito do Salvador, e deixa os inimigos enfurecerem-se, tendo tudo em seu Deus.

Quem de vocês, povo de Deus, está sentado no pó? Levante a sua cabeça! Quem olha com expectativa na aflição? Quem é oprimido pela multidão de seus pecados e lançado para cá e para lá por um mar de dúvidas e tentações do inimigo? Para quem tudo ao redor é escuridão, de modo que não vê luz? Quem está curvado sob o fardo de muitos sofrimentos?

Quem vê seus planos de santificação e seus castelos de cartas espirituais sempre soprados novamente? Quem teme o último inimigo, a morte, ou pensa que suas expectativas no Senhor são vãs? Que se alegre, vendo como o Espírito de adoção de filhos, por quem balbuciamos: “Abba, Pai!”, atesta para instrução e consolo em nosso texto:

  1. Da glória presente da Igreja em e com Cristo.
  2. Da glória subsequente desta Igreja com Cristo. (Quem está em terra estrangeira gosta de ouvir algo da pátria.)

1. Da glória presente da Igreja em e com Cristo.

“Toda formosura é a filha do Rei no interior do palácio.” Isso o Espírito testifica, e nisto Deus consola Sua querida Sião. Esta palavra torna-se um tesouro cada vez mais precioso, quanto mais se a contempla.

Quando cruz, angústia, necessidade, perseguição e todo tipo de adversidades — como seitas, ajuntamentos e heresias — vêm sobre nós, sobre nós que cremos; quando o poder do pecado aumenta em ou sobre nós, e o velho Adão  sabe como se erguer cada vez mais forte, enquanto já parecia morto há muito tempo; quando somos considerados como ovelhas para o matadouro; quando tudo nos assobia; quando nossos vizinhos e conhecidos nos evitam, ou nossos amigos nos abandonam ao nosso destino; quando de angústia e medo não sabemos mais para onde ir; quando nos tornamos o refugo de todos e, em nossos próprios olhos, um objeto de aversão e repugnância — como a Igreja e cada alma crente em particular experimentam de tempos em tempos — então é para o nosso consolo que pertencemos a um Rei. E quanto mais tudo o mais nos falta, como dinheiro, bens e honra, mais gloriosamente Ele se manifesta a nós.

Pertencemos a um Rei! Vocês O conhecem, o Homem que suou sangue no Getsêmani? O “Ecce homo” [eis o Homem], que expôs a todo o mundo gentio e judeu em Gabatá,4 que no Gólgota foi abandonado por Deus, que a Si mesmo se esvaziou e tomou a forma de servo. Este é o Rei de Sua Igreja! E quem O ama em Sua forma de cruz, também O louva em Sua glória.

Quando clamamos: “Tem misericórdia de nós, ó Deus, e tem piedade de nós!”, então Ele nos dá a alegria da Sua salvação e nos conduz ao Seu amor. E o coração Lhe canta um hino de louvor, quando de Seus lábios fluem estas palavras: “Sê consolado, Meu filho; tem coragem, Minha filha, os teus pecados estão perdoados!”

Quando Ele nos dá a graça de sofrer com Ele, então Ele nos mostra que, quando pai, mãe, esposa, filho, ou o que quer que seja, nos abandona, Ele é o Mais Belo entre os homens. Quando o mundo nos rejeita, então Ele nos aperta ao Seu peito e nos abre o Seu coração. Quando todos os outros corações estão fechados para nós, então, quando clamamos: “em nós não há força, mas os nossos olhos estão em Ti!”, Ele nos mostra que sabe comportar-se com bravura e atormenta os tiranos por nossa causa, que Ele amarra os poderosos da terra e derruba os povos com Suas flechas.

E clamamos: “Até quando, Senhor, até quando não vingarás o nosso sangue daqueles que estão na terra, que detêm a verdade em iniquidade?” Então Ele nos mostra que já há muito tempo tomou sobre Si a nossa causa, que a fez Sua, e que em breve virá para também quebrar a última resistência.

Se tudo ao nosso redor vacila e sucumbe, se parece que tudo acabará para nós e para a Igreja em breve, então Ele nos mostra que Seu trono permanece inabalável. Então Ele nos revela o domínio vitorioso de Seu governo da Igreja; que Ele o recebeu do Pai, e que tem Espírito suficiente para nos conceder tão abundantemente que permaneçamos testemunhas de Sua verdade; que tudo o que puder e tiver coragem para rugir contra isso, o faça.

Assim operou o Espírito de alegria no coração do pregador Junius, quando este em Antuérpia — à luz da fogueira e à vista do cadafalso, onde uma testemunha fiel era martirizada — consolava sua Sulamita com este Rei.5 Tal é o Rei de Sião, e Ele não envergonha aqueles que n’Ele esperam!

E o Espírito chama a Igreja: a filha deste Rei! Essa expressão, fluindo das entranhas de Cristo, do tenro coração materno de Deus, traz rico consolo. A Igreja de Cristo, e cada alma crente em particular, são chamadas noiva, pomba, irmã e filha de Cristo! Que glória! Ah, por que nós, crentes, ficamos sempre tão encurralados, e por que nos escondemos, mesmo quando o menor inimigo se aproxima de nós? Por que somos tão magros, e por que nos atormentamos tanto, nós, filhos do Rei? A uma tal princesa herdeira do céu e da terra, que pode chamar sua toda essa glória e a plenitude de Deus, o Reino, afinal, não pode ser tirado!

Oh! o Senhor sabe: ela era antes filha do diabo e noiva do inferno, presa da morte e herança do abismo. Mas quando ela jazia ali no campo em seu sangue, morta em pecados e iniquidades e sem Deus; — então soou a hora do amor eterno. O Pai a deu a Cristo, a colocou em Cristo e disse: “Viverás, sim, viverás.” Cristo a arrancou do poder do diabo e da morte, tirou seu coração de pedra e lhe deu um coração de carne. E Ele a estabeleceu em paz e alegria por Seu Espírito, para a glória de Seu santo Nome.

O Pai a atraiu para o Conselho de Sua vontade, para o louvor de Sua graça, pela qual Ele a havia amado desde a eternidade, por pura misericórdia, pelo Espírito ao Filho. E o Filho a trouxe, purificada de todos os seus pecados, tanto os do passado quanto os futuros, de volta ao Pai. Ele disse: “Pai, quero que, onde Eu estou, também estejam aqueles que Tu Me deste.” E depois que essa eleita foi assim recebida na Aliança da graça e unida a Cristo pelo Espírito da fé, o Espírito a chamou de noiva de Cristo e Cristo seu Noivo. Ele a saúda como filha do Rei, estabelecida em Sua glória.

Aqui, toda alma crente deve tirar esta conclusão: Porque Cristo foi crucificado, e em meu lugar tomou sobre Si os meus pecados, maldição, morte, miséria e condenação, por isso o Espírito testifica que o Pai me imputou o Seu mérito, como se eu mesmo tivesse sido crucificado. Sim, agora estou crucificado, morto, sepultado e ressuscitado, subido ao céu e assento à direita do meu Pai em e com Cristo.

Porque o meu eu foi julgado: Cristo cumpriu tudo. Agora sou propriedade de Cristo, e Cristo é o meu eu, e agora descanso as mãos. E quanto mais Ele, que por mim até o fim creu e lutou com a fé, me aniquila, mais Ele toma forma em mim. Quanto mais eu diminuo, mais Ele cresce em mim.

N’Ele sou perfeito e com Ele e n’Ele glorioso, belo e adornado com todo ornamento! Isso os inimigos da minha salvação e aqueles que lidam com obras devem deixar de lado; pois está escrito: “Toda formosura é a filha do Rei.”, e ainda: “Portanto, agora, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.” (Romanos 8.1)

Para que, entretanto, aqueles que querem andar segundo a carne, os anticristãos de nosso tempo e os servos de Satanás de nossa época, levem ainda mais longe a sua impetuosa vontade de pecar — para que tropecem e se confundam em sua iniquidade nesta querida doutrina que derruba toda a fé medrosa — o Espírito acrescenta: “no interior.”

“Toda formosura é a filha do Rei no interior do palácio.” De fato, o que ela é, ela é somente em e com Cristo em virtude da aliança da graça e da união espiritual com Ele. Esta glória somente o Rei vê, pois Lhe apraz vê-la nela. Pois por ela Ele a realizou, e a adquiriu e a deu a ela. Para os outros e para a própria alma, ela é apenas um tanto ou completamente invisível.

E o mundo? Sim, o mundo a tem por hipócrita. Em si mesma, ela quase diariamente descobre novos pecados, novas transgressões, novas impurezas, nova infidelidade. Ela estraga continuamente tudo, e deve continuamente jogar fora o que dela procede. Sempre deve acusar-se como transgressora desde a sua juventude, e mesmo quando chegar à porta do céu, ela não sabe de nada além de misericórdia. Ela o agradece à Sua graça, e não conhece outro ajudador através do vale da morte senão o fiel Pastor de Suas ovelhas, Jesus Cristo.

Embora a Igreja de Cristo, portanto, na humildade de seu coração, nada queira senão Cristo e Sua justiça, e testifique que nenhum bem habita nela, e que ela é carnal e vendida sob o pecado e geme e clama: “Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Romanos 7.24) Embora ela se console apenas com a justiça de Deus e de Cristo nesta vida, contudo, por causa da profundidade de sua miséria, ela se vê cada vez mais hedionda e abominável, quanto mais ama a santidade de seu Rei.

Ainda assim, não lhe falta adorno exterior. Ela recebe múltiplas graças e dons do Espírito, que tão verdadeiramente fluem da fé, como a Escritura diz, que “somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.” (Efésios 2.10)

Entretanto, neste adorno exterior ela não tem absolutamente nenhuma esperança para si mesma. O Espírito também não a aponta, de forma alguma, como a causa da glória interior! Por isso, Ele acrescenta (como deve ser traduzido):6 “Mais do que o bordado de ouro de suas vestes.” E essa comparação mostra que sua glória oculta, no que diz respeito à sua salvação e glorificação, excede em muito as vestes exteriores; estas últimas nada podem aqui. Para que, porém, se manifeste que sua fé não é uma coisa morta, e que ela não faz de Cristo um servo do pecado, porque ela também, em meio aos seus pecados, se apega a Ele, o Espírito testifica que ela está vestida de bordado de ouro.

Com esta vestimenta os crentes condenarão o mundo e julgarão todos aqueles que, com seu livre-arbítrio e com suas obras, retalham e esquartejam Cristo, o único Salvador — em quem somos perfeitamente gloriosos, ou não temos parte alguma n’Ele. Pois está escrito: “Mas, ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça.” (Romanos 4.5)

Mas este manto — que agora nos crentes é coberto pelo manto reprovável de sua própria justiça — lhes será um dia vestido de tal maneira, como se eles mesmos o tivessem feito. E enquanto eles dizem: “Quão grandes são as Tuas obras! Tu as fizeste, ó Senhor!”, Ele lhes apresentará uma lista inteira de obras e lhes dirá: “Isso fizestes; entrai, fiéis!” E a recompensa da graça por um gole de água, dado a uma criança em nome de um discípulo, será grande.

2. Da glória subsequente desta Igreja com Cristo.

“Em roupagens bordadas conduzem-na perante o Rei.” Sim, a Igreja de Deus entra, antes e depois. Muitos de seus membros já entraram, e nós também, que cremos, entraremos a Seu tempo. Ela é conduzida para dentro. Ela suportou e teve paciência aqui embaixo em resignação; agora chegou a sua hora.

Já aqui ela foi introduzida ao Rei. Pois quando jazia em seus pecados, ela não tinha desejo, e quando confessou estar perdida, não tinha ousadia nem poder para ir ao Rei, até que a necessidade de sua alma, a força da lei e, principalmente, a compulsão do Espírito a impeliram a entrar, e ela tomou a decisão: “Se perecer, pereci.” E quando clamou: “Dá-me Jesus, ou eu morro”, e ela, soluçando, orou: “Senhor, tem misericórdia de mim!”, então o Rei estendeu-lhe o cetro de Sua justiça, perdoou-lhe seus pecados, colocou-a em Seu trono, a consolou e disse: “Tudo o que é Meu é teu, e tudo o que é teu é Meu”, deu-lhe depois a mão da fé, e ela a abraçou e disse: “Amém!”

Mais tarde, muitas vezes ela foi novamente conduzida ao Rei; muitas vezes ela se sentia triste e abandonada e exclamava: “Onde estiveste, Tu, a quem minha alma ama?” Então o Rei lhe dava olhos de fé para ver que ela estava em Seu palácio. Os inimigos também a conduziam não raro ao Rei: ela ousara atacá-los em seu próprio território e teve que sucumbir. Assim, os inimigos a apresentavam, então, amarrada ao Rei, como uma vez o sumo sacerdote Josué.

Muitas vezes ela dormia, os ladrões lhe tiravam tudo; então a pobreza a levava ao Rei. Ou, porventura, vinham credores e exigiam o que somente Cristo pode dar; em vez de os afastar com fé corajosa, ela os deixava entrar. Então ela foi expulsa de casa — e agora a noite e o frio a impeliam a ir ao caminho para o Rei. Quantas vezes a necessidade da Igreja, da pátria e da família a levou novamente ao Rei, em quem ela tantas vezes encontrou ajuda e saída.

Mas a Seu tempo há ainda outra condução — uma condução para a Casa do Pai, uma condução para o Rei, para vê-Lo face a face, a Quem ela não viu aqui embaixo e, contudo, amou, e em Quem ela se alegra com alegria inefável. Ela é então conduzida ao fim de sua fé. — Oh, certamente, ela já tem Cristo completamente aqui, mas O conhece ainda tão pouco verdadeiramente — lá ela O conhecerá como Ele é.

Oh, como o Espírito nos consola maravilhosamente! Não apenas nós, que cremos, já nesta vida recebemos a alegria de cantar: “Tu, Senhor Cristo, és a minha justiça, eu, por outro lado, sou o Teu pecado! No Senhor tenho justiça e força!” — não, não, se esperássemos em Cristo apenas nesta vida, seríamos os mais miseráveis de todos os homens — nossa felicidade ascende ainda mais: em breve seremos introduzidos ao Rei. Então nosso coração deve se encher de alegria!

Que queres, pecado, lei, diabo e morte! Somos conduzidos ao Rei! Que o mundo ruge e se enfurece contra nós! Somos conduzidos ao Rei. O que podem todas as ameaças do anticristianismo e todas as perseguições dos turcos ocidentais e dos tiranos autojustos! Nós somos conduzidos ao Rei. Com isso o Espírito Santo nos consola, por isso exultamos. Oh, que o Senhor venha em auxílio da nossa incredulidade e aumente a nossa fé.

As vestes, com as quais faremos a travessia, já estão prontas; pretas e brancas elas se parecem. Pretas e brancas bordadas — o que isso significa? Já muitos pensaram consigo mesmos: “Será que não preciso mais fazer nada e posso descansar as mãos? Será que Alguém salva perfeitamente? As boas obras não ajudam em nada, e o livre-arbítrio não é nada e uma coisa vã? Bem, então se chega fácil e sem esforço ao céu.”

Ah, sim! Muito fácil, sem nenhum esforço, assim como o pobre Lázaro, que foi levado para o seio de Abraão. Mas sua injusta ação e impulso visam que você tenha descanso na carne e não precise sofrer perseguição. Ora, descanse, até que o terrível terremoto dos juízos de Deus sobre a Europa faça sua teoria estourar. Aqui temos a vestimenta da Igreja de Deus; ela é branca e preta. Preta — por causa do sofrimento e da provação. Branca — porque foi lavada e purificada no sangue do Cordeiro, como está escrito.

Com este manto foram conduzidos ao Rei, os queridos homens de Deus dos tempos antigos e novos, e nosso querido Salvador em seu meio. Chegamos ao céu, mas não sem provação, seja qual for. Quem gosta disso? Absolutamente ninguém por natureza. Mas a quem, por graça, é dado não apenas crer n’Ele, mas também sofrer por causa de Seu Nome, este, embora a evite no início, depois, quanto mais a suporta, mais preciosa ela se torna.

Com este manto Abel se vestiu, com este manto Jacó, José e os Profetas de Jerusalém, com este manto Paulo, Pedro, Tiago e João, com este manto Inácio e Policarpo e quase todos os primeiros cristãos. Com este manto também os Valdenses e Jerônimo de Praga, Hus e os Hussitas, assim também mais tarde os irmãos de fé Reformados; com este manto foram introduzidos ao Rei. E entre estes estavam muitas daquelas “virgens”, de quem o Espírito diz: “as virgens, suas companheiras que a seguem, serão trazidas à tua presença.”

Pois é graça do Senhor que Ele, em Sua Igreja, “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Efésios 4.11-13).

Essas suas companheiras e jovens donzelas são sempre fiéis “atrás” da Igreja de Cristo. Oh, que cargo precioso é ser companheira da noiva de Cristo, e pastoreá-la sob a liderança do Sumo Pastor! Elas não temem o lobo, nem fogem dos cães, como os mercenários e sedutores. Por isso, elas também vão vestidas com o manto preto e branco, e entram lá, onde brilharão como as estrelas na casa do Rei, eterna e sempre. “Serão dirigidas com alegria e regozijo; entrarão no palácio do Rei.”

O Espírito nunca cessa; Ele consola continuamente, para que nunca desesperemos. Oh, esta palavra permanecerá verdadeira, para desprezo e escárnio dos demônios, de todos os perseguidores e sedutores. Aqui é o fim de nossa fé, pela qual vencemos o mundo, e o fim de nossa perseverança, pela qual fomos mais poderosos do que nossos inimigos. Sim, somos conduzidos “com alegria e regozijo”.

Mesmo que seja com muitas lágrimas e muita luta, a causa justa finalmente triunfa. Então o Senhor nos mostra quão bom foi e quão importante era que perseverássemos em Sua verdade, que andássemos em nossa jornada na fé nua em Sua Palavra, e somente n’Ele encontrássemos nosso descanso, e tivéssemos e confessássemos nossa justiça completa e unicamente n’Ele.

Então o Senhor nos mostra quão bom foi apenas glorificar e louvar Sua graça e misericórdia, e não nos adornarmos com uma santificação de nossa justiça, mas recebermos nosso manto de honra e nosso ornamento somente d’Aquele que nos foi dado por Deus também para santificação. “Serão dirigidas.” Sim, o Senhor é fiel! Ele começa a boa obra e também a completa, e com o sopro de Seu Espírito vivificou um morto para a vida espiritual. Ele certamente o conduz também para a vida eterna.

Quando Ele nos colocou no caminho da salvação, Ele nos prometeu: “Eu te tomarei e te carregarei, te guiarei e te salvarei.” Ele tem prazer em engrandecer e glorificar Sua fidelidade em nossa infidelidade, Sua graça em nossa miséria, que está em Cristo. Como Ele os conduz então? Através da morte; também contra esta vale um: “serão dirigidas” e um: “onde estão, ó morte, as tuas pragas? Onde está, ó inferno, a tua destruição?” (Oséias 13.14; 1 Coríntios 15.55).

E a morte é vencida; e aqui não vamos além. Basta — elas serão conduzidas com toda alegria e regozijo. Como isso acontece, podemos experimentar em nosso próprio leito de morte; então o Senhor nos consola com um: “Meus pecados todos E sem conta São-me por graça perdoados, Todos perdoados! Eu mereci a morte eterna, E herdo a vida eterna.”

Ou, com qualquer palavra que seja. Com isso nos consolamos, e isso dá alegria e regozijo na morte, se cremos de coração que o Pai, ao ressuscitar Cristo, Seu Filho, dentre os mortos, declarou solenemente perante o céu, a terra e o inferno que a morte, como salário do pecado, não tem mais poder sobre nós, porque Cristo pagou esse salário em nosso lugar e assim destruiu a morte.

Isso dá alegria e regozijo, pois, afinal, o Salvador está muito perto dos Seus, e Ele lhes dá a coroa da justiça, quando entram no palácio do Rei. Então eles têm o seu Rei, participam do céu e de toda a Sua plenitude, e têm a saciedade da alegria e deleites à direita de Deus para todo o sempre. Disso ainda haveria muito a dizer; mas quem tem Cristo, experimentará isso por si mesmo. E quem não O tem, que O procure, antes que as portas do palácio se fechem para sempre, e você não possa mais entrar, por mais que bata.

AMÉM.


Informações sobre a Tradução: A presente publicação consiste em uma tradução livre e integral.

KOHLBRÜGGE, Hermann Friedrich. Twaalf Twaalftallen Preken: 1ste Twaalftal [Doze Dúzias de Sermões: 1ª Dúzia].

O conteúdo e as interpretações expressas neste material são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es) e não refletem, necessariamente, a visão ou o posicionamento editorial da Editora Via Continental.

Nota Editorial (para Publicação Web): Para esta publicação online, alguns títulos de seção (tópicos) e as imagens foram inseridos pelo editor com o objetivo de otimizar a leitura e a experiência visual do usuário. O texto bíblico utilizado é da Bíblia Almeida Revista e Atualizada (ARA).


Notas:


  1. “Per desperata (Latim): Expressão que significa ‘pelas coisas desesperadoras’ ou ‘por meio de situações desesperadoras’. Refere-se a circunstâncias ou realidades objetivamente sem esperança, em contraste com o sentimento subjetivo de desespero. O holandês original emprega ‘door het wanhopige heen’, que transmite a mesma nuance de atravessar o que é desesperador.” [N. do E.] ↩︎
  2. Noite de São Bartolomeu: Refere-se ao massacre de huguenotes (protestantes franceses) que ocorreu em Paris e se espalhou pela França a partir de 24 de agosto de 1572. Milhares de protestantes foram mortos por católicos romanos, sob a aparente aprovação da coroa francesa. No contexto do sermão, é usada como um exemplo histórico de perseguição e sofrimento extremo para os crentes, em contraste irônico com o ‘Natal’ (dia de alegria). [N. do E.] ↩︎
  3. No texto original em holandês, Salmos 45.14-16 é citado, o que na tradução Almeida Revista e Atualizada (ARA) corresponde aos versículos Salmos 45.13-15. Esta diferença é comum em Bíblias de diferentes tradições e línguas, e não altera o conteúdo da passagem. [N. do E.] ↩︎
  4. Gabatá: Termo de origem aramaica que significa ‘pavimento de pedra’. Mencionado no Evangelho de João (João 19.13) como o local onde Pôncio Pilatos se sentou para julgar e condenar Jesus Cristo. [N. do E.] ↩︎
  5. A referência é a Franciscus Junius, o Velho (François du Jon, 1545–1602), um influente teólogo reformado que atuou como pastor em congregações clandestinas em Antuérpia (c. 1562-1564). Este foi um período de intensa perseguição a protestantes nos Países Baixos, com inúmeros martírios testemunhados por Junius. Kohlbrügge utiliza este exemplo para ilustrar como, mesmo diante da visão aterradora da perseguição, o pregador Junius, movido pelo Espírito Santo, conseguia extrair força e consolo da certeza da realeza de Jesus Cristo e transmiti-la à igreja. [N. do E.] ↩︎
  6. Dr. H. F. Kohlbrügge adota uma interpretação comparativa para a preposição hebraica מִן (min) em Salmos 45.14 (traduzindo como ‘sua vestimenta é mais do que bordado de ouro’). Embora מִן possa ter sentido comparativo, a maioria das traduções e exegetas a interpreta aqui como indicativa de composição (‘feita de ouro’). A insistência de Kohlbrügge em ‘como deve ser traduzido’ reflete uma ‘licença interpretativa’ profundamente motivada por sua teologia (ênfase na pecaminosidade humana e graça divina). Ele busca reforçar a ideia de que a verdadeira glória da Igreja não reside em suas manifestações externas, mas em sua união interior com Cristo, priorizando a glória espiritual interna como teologicamente essencial. [N. do E.] ↩︎

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