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O valor e a dignidade do ofício de presbítero

Um prefácio ao livro "O Ofício dos Presbíteros", de W. De Jong

Lucas Lindeboom | Professor
09/09/2025

Palavras iniciais1

A pedido da última Conferência Pastoral Central, o Rev. W. De Jong, ministro da Palavra na Igreja Reformada de Dalfsen2, publicou sua palestra sobre “O Ofício dos Presbíteros”3. A meu pedido, ele a cedeu para a revista “Wat zegt de Schrift?” (“O Que a Escritura Diz?”), No. 10-12, que foi publicada recentemente4. Para que este texto possa ser lido por um círculo mais amplo, ele é agora também publicado separadamente.

É uma verdadeira alegria para mim poder chamar a atenção de todos os presbíteros, ministros da Palavra e membros da congregação para esta publicação por meio de uma palavra de recomendação.

O ofício dos presbíteros é de suma importância para o bem-estar da Igreja de Deus, e essa importância é claramente destacada pelo competente autor. Para o exercício correto desse ofício glorioso e desejável, é um primeiro e fundamental requisito que os próprios presbíteros, assim como os ministros da Palavra e todos os membros da congregação, saibam e considerem bem o que pertence a esse ofício, e como ele deve ser exercido e honrado de acordo com a vontade do Senhor.

Quando as antigas Igrejas Reformadas enfraqueceram e se corromperam, o ofício dos presbíteros perdeu sua força e honra. Também se pode dizer: quando o ofício dos presbíteros perdeu sua força e honra, as Igrejas enfraqueceram e se corromperam cada vez mais5. E não poderia ser de outra forma. Quando as ordenanças do Senhor são mal compreendidas, o Espírito Santo é entristecido e resistido. De acordo com Sua Palavra e instituição, os presbíteros têm um lugar e trabalho próprios ao lado dos ministros da Palavra, para o benefício da congregação. Se o Senhor estabelece um ofício, esse ofício é necessário e uma bênção para o bem-estar e a prosperidade do rebanho do Bom Pastor e para Sua glorificação.

Quem não reconhece esse ofício e seu portador, e impede sua ação e influência, e quem negligencia o ofício que lhe foi confiado, peca contra esse ofício e contra a congregação, mas também contra Deus, cuja casa é a congregação; e contra o Senhor Jesus Cristo, que deu Seus ministros para a edificação de Sua congregação, a qual Ele comprou a um alto preço; e contra o Espírito Santo, que, da plenitude de Cristo, concede os dons e, conforme as necessidades da congregação, chama, estabelece, guia e abençoa os portadores dos ofícios.

Pela redescoberta da Igreja Reformada em nossa pátria, agradou a Deus trazer o ofício dos presbíteros de volta à honra e torná-lo uma rica bênção. Já mais de duas gerações de presbíteros, desde 1834, entraram no descanso de seu Senhor, os quais muito trabalharam, muitos deles, especialmente nos primeiros tempos, sob vergonha e opressão, com e pelo povo de Deus6.

Para as Igrejas Reformadas de hoje e do futuro, é da maior importância que elas tenham não apenas ministros da Palavra bem treinados, mas também presbíteros talentosos e competentes, que trabalhem com os ministros no temor de Deus e que saibam e possam trabalhar de acordo com as diversas necessidades da congregação, e que sejam reconhecidos, apoiados e guiados pelos ministros e pela congregação em razão de seu ofício e trabalho como cooperadores de Cristo.

O Rev. De Jong aponta, com franqueza e cautela, fidelidade e modéstia, também para as deficiências tanto na administração quanto no reconhecimento do ofício de presbítero. Por isso, os presbíteros se recusarão a ler e ponderar este escrito? Outros o usarão para oprimir os presbíteros que, em sua opinião, estão muito aquém, em vez de colaborar para o despertar e o encorajamento? Se isso acontecer, a culpa será deles, e não da testemunha fiel, cuja palavra é verdadeira, segundo as Escrituras. Ele não critica para derrubar — como acontece com muita frequência em relação aos portadores de ofício —, mas para purificar, fortalecer e edificar, por meio da exortação e da consolação.

Eu chamo a atenção para três pontos em particular.

1º. Sobre a vocação dos presbíteros para ter cuidado com a catequese e a pregação, o ministério da Palavra na assembleia da congregação e a instrução dos filhos da congregação no caminho do Pacto.

Essa é, sem dúvida, uma tarefa tão delicada quanto importante. Eles devem vigiar para que a congregação seja verdadeiramente nutrida e regada com o pão e a água da vida, de acordo com as diversas necessidades dos jovens e dos velhos, dos fracos e dos fortes, dos alegres e dos tristes, dos ricos e dos pobres. Eles devem garantir que a pregação seja, em tudo, conforme as Confissões de Fé das Igrejas e segundo a Palavra de Deus; que ela sirva de consolo e de revelação, que os rebeldes sejam chamados ao arrependimento e que os arrependidos e os abatidos sejam levantados e encorajados.

Além disso, devem apoiar os ministros da Palavra com seu conhecimento e experiência e, se necessário, tanto exortá-los quanto encorajá-los, para que cumpram seu trabalho com diligência e fidelidade e com alegria, de modo que seu progresso seja manifesto em tudo.

E também devem exercer uma supervisão fiel uns sobre os outros e sobre os diáconos. Por outro lado, também devem se deixar ensinar e exortar de bom grado pelos ministros da Palavra e uns pelos outros. Assim como eles, não devem se considerar demasiado elevados para acolher modestamente uma observação e um desejo dos membros da congregação a respeito da administração do ofício.

Quanto conhecimento é necessário para isso! Conhecimento da Palavra, conhecimento das Confissões de Fé das Igrejas e da Ordem da Igreja, conhecimento da vida espiritual com suas diversas formas, estágios e manifestações, e conhecimento das condições e necessidades dos diferentes círculos de vida do povo.

2º. O Rev. De Jong também chama a atenção, com razão, para a vocação da catequese: que ela também leve em conta os ofícios e trabalhe para a formação de portadores de ofício competentes e fiéis7

Eu gostaria de acrescentar o conselho que já foi expresso na Conferência Pastoral Central, na breve discussão desta palestra: não seria realmente recomendável, ou mesmo necessário, que se trabalhasse de alguma forma para a formação de presbíteros? “Se alguém aspira ao episcopado, excelente obra deseja”, diz o Espírito Santo (1 Timóteo 3.1).

Não é considerado desonra ou autoexaltação se alguém manifesta o desejo pelo ofício do ministério da Palavra e se coloca no caminho da formação. Não seria bom que também aqueles que têm desejo pelo ofício de presbítero manifestassem esse desejo e, após a prova, fossem formados como candidatos para esse ofício e recomendados à congregação, sem que essa formação se torne um requisito8?

Atualmente, especialmente em grandes congregações, infelizmente, ano após ano, um grande número de irmãos precisa ser indicado, sobre cuja aptidão não há certeza. O Conselho tem certeza — como pode ter? — de que esses irmãos estão fundamentados na Palavra e nas Confissões de Fé das Igrejas, sem mencionar outros requisitos indispensáveis em cada presbítero?

3º. Também há razões para ouvir o orador quando ele aponta que os presbíteros também devem ser nomeados como delegados9.

Isso acontece entre nós, mas o ofício de presbítero é suficientemente reconhecido em seu direito e vocação nisso?

E não é verdade o que o orador diz sobre o lugar “muito modesto”, afinal, que os presbíteros, não sem culpa própria, ocupam nas Assembleias Eclesiásticas mais amplas? Até agora, tem havido uma grande lacuna na delegação de presbíteros. De acordo com o Art. XLII e seguintes do Art. XLI da Ordem da Igreja de Dordrecht, todos os ministros de uma congregação têm o direito de comparecer à Assembleia Classista com voto, mas apenas um presbítero. Leia o que foi observado e proposto a esse respeito em Groningen em 1897. É bom que todos os ministros da Palavra tenham voto, exceto em assuntos da própria congregação; mas por que não delegar também um número igual de presbíteros?

De fato, essa desconsideração do ofício de presbítero deve desaparecer da Ordem da Igreja Reformada. Ela sempre esteve em conflito com o princípio e o ponto de partida do governo presbiteriano da Igreja, que está de acordo com a Palavra10.

A palestra que aqui recomendamos, para a leitura e ponderação em oração de todos os irmãos e irmãs, e também para a troca de ideias nos jornais da Igreja, é importante, não menos por isso: porque contém observações e conselhos que podem levar à melhoria e ao fortalecimento sob a bênção do Senhor.

Termino esta palavra de recomendação chamando a atenção para a preciosa obra: O Ofício e os Deveres dos Presbíteros e Diáconos, descrita por Jac. Koelman, Ministro do Santo Evangelho11. Nova edição com prefácio de S. van Velzen12, publicada em Haia por J. van Golverdinge.

Que o Espírito do Senhor trabalhe poderosamente entre nós, faça sentir a necessidade de presbíteros adequados, aumente a oração por tais presbíteros e por todos os que servem ao Senhor e à congregação neste glorioso ofício; e que equipe e abençoe todos os ministros da Palavra, presbíteros e diáconos, para a preparação da congregação para a vinda do supremo Pastor, conforme a Escritura diz (1 Pedro 5.1-4).

“Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero como eles, e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e ainda coparticipante da glória que há de ser revelada: pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho. Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória.”

“Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue. Eu sei que, depois da minha partida, entre vós penetrarão lobos vorazes, que não pouparão o rebanho. E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles. Portanto, vigiai, lembrando-vos de que, por três anos, noite e dia, não cessei de admoestar, com lágrimas, a cada um. Agora, pois, encomendo-vos ao Senhor e à palavra da sua graça, que tem poder para vos edificar e dar herança entre todos os que são santificados.” (Atos 20.28-32)

“Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros.” (Hebreus 13.17)

L. Lindeboom.

Kampen, maio de 1905.

Para acessar o artigo do qual o texto de Lindeboom é o prefácio, clique no link a seguir:


Informações sobre a Tradução: A presente publicação consiste em uma tradução livre integral do prefácio de Lucas Lindeboom à obra “Het ambt der ouderlingen” [O ofício dos presbíteros], de Willem de Jong.

DE JONG, W. Het ambt der ouderlingen. Heusden: Gezelle Meerburg, 1905.

Nota Editorial (para Publicação Web): Para esta publicação online, alguns títulos de seção (tópicos) e as imagens foram inseridos pelo editor com o objetivo de otimizar a leitura e a experiência visual do usuário. O texto bíblico utilizado é da Bíblia Almeida Revista e Atualizada (ARA).


Notas:

  1. O presente artigo é, na verdade, o prefácio de Lucas Lindeboom para a obra do Rev. W. De Jong intitulada “O ofício do presbítero”, que também pode ser encontrada no site da Editora Via Continental. [N. do E.] ↩︎
  2. O Rev. Willem de Jong (1872-1918) foi um pastor e autor influente nas Igrejas Reformadas da Holanda (Gereformeerde Kerken in Nederland – GKN). Embora não tenha sido professor universitário, ele se destacou como um escritor prolífico sobre temas de teologia prática e edificação da igreja. É especialmente lembrado por suas contribuições significativas sobre a catequese, defendendo um método de instrução que fosse fiel à doutrina reformada e, ao mesmo tempo, relevante e formativo para a vida dos jovens e futuros oficiais da igreja. [N. do E.] ↩︎
  3. A Conferência Pastoral Central (em holandês: Centrale Pastorale Conferentie) era uma reunião de ministros da Palavra na tradição reformada holandesa. Seu propósito principal era o aprofundamento teológico e a troca de experiências pastorais, funcionando como um fórum para discutir questões doutrinárias e práticas que surgiam nas igrejas. Essas conferências também tinham um papel crucial na estrutura eclesiástica. Ao discutir e, por vezes, propor resoluções sobre os mais variados temas — desde a teologia da igreja até questões litúrgicas — elas ajudavam a preparar o caminho para as decisões sinodais. [N. do E.] ↩︎
  4. Lucas Lindeboom foi o editor dessa revista, que era publicada como um periódico mensal. A revista foi lançada no início do século XX e tinha como subtítulo “Maandblad tot bevordering van het rechte lezen en uitleggen van Gods Woord” (Mensário para a promoção da leitura e interpretação corretas da Palavra de Deus). [N. do E.] ↩︎
  5. Infelizmente, um ciclo terrível é claramente percebido na história das Igrejas Reformadas nos Países Baixos: quando o ofício dos presbíteros perde sua força e honra, as igrejas primeiro enfraquecem e, depois, se corrompem. Portanto, qualquer sinal de fraqueza nesse ofício deve ser rapidamente reconhecido, lamentado e corrigido. É um passo crucial para evitar que a igreja caia em corrupção e perca sua própria identidade. [N. do E.] ↩︎
  6. Em 1834 ocorreu a Afscheiding (Secessão). Agora, em 1905, Lindeboom escreve sobre um período de mais de setenta anos em que muitos presbíteros que participaram desse movimento já haviam falecido e se encontrado com o Senhor. [N. do E.] ↩︎
  7. Neste contexto, a palavra ‘catequese’ é empregada em um sentido mais amplo, referindo-se a todo o programa de instrução sistemática da igreja. Sendo assim, esse programa deve ter também a formação de líderes como um de seus objetivos explícitos. A ideia é que a instrução doutrinária não seja apenas teórica, mas equipe os membros para o serviço prático, incluindo o exercício dos ofícios especiais. [N. do E.] ↩︎
  8. A preocupação com a qualificação dos candidatos a presbíteros, expressa no texto, levanta a questão da necessidade de processos de formação e seleção mais estruturados. Historicamente, diferentes igrejas e tradições reformadas têm explorado métodos que incluem a indicação pela congregação, a avaliação do conselho, períodos de treinamento doutrinário e prático, e avaliações subsequentes, visando garantir a aptidão dos oficiais. Tais abordagens devem sempre ser consideradas à luz das Escrituras, das Confissões e dos regimentos locais. [N. do E.] ↩︎
  9. Ele se refere ao papel dos presbíteros como delegados, ou seja, representantes das igrejas, enviados para participar de assembleias eclesiásticas como concílios nacionais ou regionais. [N. do E.] ↩︎
  10. O Regimento das Igrejas Reformadas do Brasil estabelece o seguinte em seu Artigo 35: Concílio: Um concílio é uma reunião de delegados de igrejas. Cada igreja delegará, com as devidas credenciais, um ministro da palavra e um presbítero, ou dois presbíteros, se não tiver ministro. Excepcionalmente, diáconos podem ser delegados. Haverá pelo menos dois concílios por ano. [N. do E.] ↩︎
  11. O Rev. Jacobus Koelman (1631-1695) foi um proeminente pastor, teólogo e autor holandês, considerado uma das figuras centrais da “Nadere Reformatie” (Segunda Reforma Holandesa), um movimento de piedade puritano na Holanda. Como pastor, ele era conhecido por sua pregação fervorosa e sua oposição a formalidades na igreja que considerava não bíblicas. Seus escritos, fortemente influenciados pelo puritanismo inglês, focavam na importância da piedade prática, na experiência da fé e na aplicação da doutrina à vida diária do crente. [N. do E.] ↩︎
  12. Dr. Simon van Velzen (1809-1896), pastor e posteriormente professor na Escola Teológica de Kampen, foi uma figura central na Secessão de 1834, sendo conhecido como um de seus ‘Pais’. Sua obra escrita é, em grande parte, de caráter polêmico e doutrinário, dedicada a defender a ortodoxia confessional reformada contra o modernismo e a justificar a legitimidade da Secessão. [N. do E.] ↩︎

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