setembro 1, 2025
Pedro: Olá, seja bem-vindo ao PactualCast. No episódio de hoje, vamos mergulhar em um momento crucial da história da igreja reformada holandesa, conhecido como a “Libertação” de 1944. Para nos guiar, usaremos como base o artigo “O que levou à Libertação?”, do Professor J. Geertsema.
Pedro: Paulo, para começarmos, o artigo nos situa em 1892, com a união de dois grupos de igrejas. Você poderia nos explicar quem eram esses grupos e o que os motivou a se unirem?
Paulo: Claro, Pedro. A união de 1892 juntou as igrejas da “Secessão” de 1834 e as da “Doleantie” de 1886. Ambos os movimentos compartilhavam um desejo fundamental: retornar à verdade da Palavra de Deus, como expressa nas Três Formas de Unidade, e se libertar da hierarquia sinodal que dominava a Igreja Reformada Holandesa. Eles queriam voltar a viver sob a Ordem da Igreja de Dort, de 1618-1619.
Pedro: Hum, então eles tinham um objetivo comum muito forte. Mas o autor aponta que, apesar disso, havia diferenças significativas entre eles, certo?
Paulo: Exatamente. A primeira diferença era na liderança. A Secessão foi um movimento de vários ministros juntos, enquanto a Doleantie foi liderada pela figura dominante do Dr. Abraham Kuyper. A segunda diferença, e talvez mais importante para o que viria depois, estava na ênfase. A Secessão focava mais na confissão. Já Kuyper e seus colaboradores, embora valorizassem a confissão, davam uma ênfase muito grande na Ordem da Igreja e no que ele chamava de “princípios reformados”, que ele usava como base para projetos como a Universidade Livre, em vez das confissões em si.
Pedro: Ah! Então isso quer dizer que, desde o início, já existiam sementes de tensões teológicas. O texto destaca uma em particular, relacionada à regeneração e ao batismo. Poderia nos explicar a visão de Kuyper sobre esse assunto?
Paulo: Sim, essa foi a questão central. Kuyper desenvolveu a ideia de que a regeneração em uma criança da aliança deveria ser presumida como algo que já aconteceu antes do batismo. Para ele, essa regeneração seria operada pelo Espírito Santo de forma imediata, ou seja, sem o meio da Palavra. Portanto, a base para o batismo de uma criança seria essa regeneração já ocorrida. Isso também levava à conclusão de que a aliança, em seu sentido mais verdadeiro, era feita apenas com os filhos eleitos e regenerados.
Pedro: Bem, essa é uma construção teológica bastante específica. E qual era a visão oposta, defendida por homens como o professor Lindeboom?
Paulo: Eles argumentavam de forma diferente. Para eles, a base para o batismo não é uma regeneração presumida, algo que não podemos ver no coração da criança. A base, segundo eles, é a promessa da aliança de Deus, que é para os crentes e seus filhos, e o mandamento de Deus para que essas crianças sejam batizadas. A base é externa, na promessa de Deus, e não interna, numa suposição sobre a criança.
Pedro: Com uma divergência tão fundamental, como a igreja lidou com isso inicialmente? O Sínodo de 1905 tentou resolver a questão?
Paulo: Tentou, sim. O Sínodo de 1905 emitiu uma declaração pacificadora, buscando um meio-termo. Por um lado, dizia que a expressão “regeneração imediata” de Kuyper podia ser usada “em bom sentido”. Por outro lado, afirmava que era menos correto dizer que o batismo se baseava na regeneração presumida, pois a verdadeira base é o mandamento e a promessa de Deus. Crucialmente, o Sínodo concluiu que não se pode provar, nem pelas Escrituras nem pela Confissão, quando exatamente Deus cumpre Sua promessa de regenerar — se antes, durante ou depois do batismo.
Pedro: Então foi uma tentativa de acomodar os dois lados, mas sem resolver a questão de fundo. Esse acordo funcionou a longo prazo?
Paulo: Não. Com o tempo, a imensa influência de Kuyper fez com que suas ideias se tornassem a visão dominante nas igrejas. As correções e ressalvas do Sínodo de 1905 foram, em grande parte, esquecidas. A linguagem teológica de Kuyper sobre a aliança e a regeneração passou a ser a norma.
Pedro: E o que aconteceu nas décadas seguintes que reacendeu o conflito de forma tão intensa?
Paulo: Nos anos 30, vozes como a do Rev. K. Schilder começaram a apontar a necessidade de corrigir alguns ensinamentos de Kuyper para se manter fiel às Escrituras. Isso gerou uma reação. O Sínodo de 1936, por iniciativa própria — o que já era um ato hierárquico —, decidiu tratar dessas “diferenças de doutrina”. O Sínodo seguinte, em 1942, em plena guerra, adotou decisões doutrinárias que solidificavam a visão de Kuyper. Eles citaram apenas a parte da declaração de 1905 que favorecia Kuyper, afirmando que “a semente da aliança deve ser tomada como regenerada”, e ignoraram as correções.
Pedro: Então, o Sínodo não apenas tomou um lado na disputa, mas também tornou essa visão obrigatória para as igrejas. Qual foi o estopim que levou finalmente à “Libertação” de 1944?
Paulo: O Sínodo de 1943-45 rejeitou todos os apelos contra essas decisões e começou a impor sua doutrina. Ministros e professores tinham que declarar concordância. Além da questão doutrinária, muitos se opuseram a essa crescente hierarquia sinodal. O clímax foi quando o Sínodo, extrapolando sua autoridade, suspendeu dois professores proeminentes, Schilder e Greijdanus. Isso foi a gota d’água. A disciplina pertence ao consistório local, não a uma assembleia geral.
Pedro: E isso levou diretamente ao ato da Libertação.
Paulo: Exatamente. Em 11 de agosto de 1944, foi lido e adotado o “Ato de Libertação e Retorno”. As pessoas se libertaram por duas razões principais: primeiro, da obrigação de aderir a doutrinas que consideravam contrárias às Escrituras e à Confissão; e segundo, de um sistema de governo hierárquico que se afastava da Ordem da Igreja Reformada. Foi um retorno às Escrituras, à Confissão e à Ordem da Igreja.
Pedro: Fica claro, então, que a Libertação não foi um evento repentino, mas o resultado de décadas de tensão teológica e de um desvio no governo da igreja. Foi um movimento para preservar tanto a sã doutrina quanto a correta política eclesiástica.
Pedro: Paulo, muito obrigado por nos guiar através dessa história complexa, mas tão importante.
Pedro: Em resumo, vimos hoje que a Libertação de 1944 foi o culminar de um longo processo que começou com a União de 1892. A controvérsia central girava em torno da base do batismo infantil: a promessa da aliança de Deus ou uma suposta regeneração na criança. Uma tentativa de acordo em 1905 não foi suficiente para conter a crescente influência da teologia de Kuyper, que acabou sendo imposta de forma hierárquica pelos sínodos nas décadas de 30 e 40. A Libertação foi, portanto, uma reação tanto doutrinária quanto de governo da igreja, buscando um retorno aos fundamentos reformados.
Pedro: Para mais conteúdos sobre a fé reformada, visite o site – editoraviacontinental.com.
Paulo: Até a próxima.
Pedro: Até a próxima.
O PactualCast tem como objetivo apresentar resumos em formato de diálogo, baseados em artigos de autores reformados continentais. As vozes dos apresentadores (Pedro e Paulo) são sintéticas; por isso, ocasionalmente pode ocorrer alguma pronúncia imprecisa. Ressaltamos que o roteiro do podcast foi integralmente editado e supervisionado pelo Pr. Elienai B. Batista. Para se aprofundar no tema, recomendamos a leitura do artigo em sua fonte original.
O texto usado para o podcast é o artigo do Prof. J. Geertsema – What led to the Liberation? Clique no link para acessar o artigo.